Rivais de Ixalan

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

10 de Janeiro de 2018 | Por Alison Luhrs, Gregg Luben & Kelly Digges

A Inundação

KUMENA

O Moldador Kumena disparou através da vegetação rasteira, com o coração acelerado. Ele mal usava sua magia — apenas um empurrão aqui e ali para que o matagal ajudasse sua passagem em vez de dificultá-la. Qualquer ato maior de feitiçaria teria levado Tishana diretamente a ele.

Ele conseguia sentir. Estava aproximando-se da Cidade Dourada de Orazca, o local de repouso do Sol Imortal. Seus rivais estavam atrás dele, e a vitória jazia à frente.

Kumena mergulhou em um rio próximo e nadou com a correnteza. O poder da cidade dourada crescia mais próximo, maior e, de alguma forma, mais brilhante. Ele ouvia o ruído da água correndo sobre alguma estrutura imensa à sua frente. A cachoeira o surpreendeu — a água aqui parecia como se tivesse sido apenas recentemente puxada em uma direção separada.

O rio alargou-se. À frente, a água despencava sobre a borda de uma vasta cachoeira, e Kumena nadou com a correnteza até parar em um afloramento de ouro. A água que chegava aos tornozelos passava correndo, e estranhos pináculos dourados perfuravam o topo das árvores do vale diante dele.

Kumena, Tirano de Orazca | Arte de Tyler Jacobson

Ele abriu um sorriso largo. Finalmente!

Em uma prateleira de rocha através de um cânion fino e semicircular, pináculos dourados erguiam-se da selva.

Kumena fez seu caminho ao redor da borda do cânion. A água tombava no desfiladeiro muito abaixo, levada por um rio subterrâneo. Quão longe e largo corre esse canal invisível? perguntou-se. Será que ele apequena o próprio Grande Rio? Kumena contemplou que forças jaziam escondidas sob a superfície de Ixalan.

A própria Orazca era massiva, mas ele continuava perdendo-a de vista. (Ele! Um Moldador, a personificação de seu rio homônimo!) Kumena estava impressionado com a magia inerente a este lugar e sua habilidade de permanecer oculta por tanto tempo. Ele abriu caminho ao redor de seu perímetro até que finalmente alcançou sua entrada: uma escadaria massiva com um grande arco no topo.

Seu coração acelerao e as barbatanas tremeram. Quem mais escalara esta escadaria nos últimos séculos? Alguém escalara? Qual era seu propósito original? Por que fora construída?

Não, não por quê. Ele sabia o porquê. Construíram-na para este momento, para ele escalar. As pedras sob seus pés ondulavam com poder, mas era seu próprio poder refletindo de volta para ele.

A Ascensão de Hadana | Arte de Titus Lunter

Kumena ascendeu à cidade dourada finalmente.

Alcançou o arco no topo da escada, e o sol que brilhava através dele quase o cegou.

Ouro. É realmente feita de ouro.

Mas o ouro não o interessava. Olhos o vigiavam das sombras, animais que faziam seus lares nestas ruínas estranhamente intocadas. Eles também não o interessavam.

Pisou dentro da cidade dourada. Conseguia sentir seu poder crescendo já, e sabia com certeza que seus rivais não estavam longe atrás dele agora. A luz brilhava de cada superfície, e o sol aquecia sua pele. Parecia um retorno ao lar.

Kumena foi tomado por um sentimento súbito de certeza. Ele sabia onde o Sol Imortal repousava. Ele queria ser encontrado.

"Kumena," uma voz sussurrou das paredes douradas. "Kumena, o Moldador, filho do Grande Rio, líder de seu povo. Venha me libertar."

Poderia ser? Todo este tempo, a cidade dourada era uma prisão, não uma fortaleza?

"Quem está aí?" gritou Kumena. "Como você me conhece?"

Ele virou-se e, nas brilhantes fachadas douradas da cidade, jurou ter visto algo mover-se. Não conseguiu distinguir o que era — nem animal nem pessoa. Perguntou-se com alarme se era apenas um truque da luz.

"Eu o conheço muito bem," disse a voz, mais alta agora. "Venha a mim."

A voz era familiar.

"Como?" disse Kumena. "Onde você está?"

Havia reflexos no ouro, de uma coisa que não estava lá. Um rosto?

"Escute," disse a voz. "Olhe. Siga."

"Quem é você?"

"Você sabe quem eu sou."

A voz era profunda e autoritária, a voz de um líder. Era a sua própria.

"Isto é algum engano?" perguntou ele. "Ou estou perdido na loucura?"

Os rostos eram seus também, mil minúsculos eus dourados brilhando para ele, olhos iluminados.

"Nenhum dos dois," disse a voz. "Há poder aqui, Kumena. O poder que foi intencionalmente desenhado . . . mas também um poder adicional, inerte. Uma lagoa parada. Um espelho nas trevas. Ele nada pode fazer . . ."

". . . sem o meu próprio poder para refletir," Kumena completou. "É isso?"

"Siga," disse a voz, e os muitos reflexos dourados do próprio rosto de Kumena ecoaram. "Siga."

"Quem é você?"

"Eu sou o Sol, Kumena. Como você será. Siga."

Era um comando, entregue com toda a força de suas próprias convicções.

Um labirinto estendia-se diante dele, corredores serpentinos de pedra e ouro vagando na distância. Kumena entrou no labirinto e caminhou firmemente, em um transe meditativo, seguindo o chamado do Sol Imortal a cada curva e volta. A cada passo, seu poder crescia. Cada superfície era delineada em luz brilhante.

Era brilhante demais, quente demais. Suas barbatanas começaram a se enrolar e dessecar, suas guelras ficaram secas, e ainda assim o sol não se movia no céu.

Kumena aproximou-se de uma torre central, um templo gigantesco. Vagou ao redor dela, sentindo que ali era onde o poder jazia. Em um lado havia uma porta massiva e intrincada, sua entrada marcada com um grande selo e uma fechadura complexa. Mas o outro lado, o lado voltado para uma grande praça central, tem uma porta simples que leva a uma escadaria simples. O caminho para o topo.

Kumena estremeceu, embora não estivesse com frio, e optou por tomar o caminho de menor resistência.

Começou a subir as escadas.

Para cima e para cima, um pé com membranas na frente do outro, até alcançar o topo.

Entrou na câmara e contemplou o Sol Imortal. Não parecia o que ele esperava — uma pedra de brilho baço cercada por ouro, e incrustada no chão, de todos os lugares. Uma grande janela aberta dava para a cidade além e, se alguém ficasse em cima do Sol Imortal, seria capaz de ver a cidade inteira. O Sol Imortal parecia nada mais que uma decoração estranha no chão, mas ele parecia . . . parecia um espelho, não uma luz. A luz era dele.

Entendo agora.

Kumena pisou no Sol Imortal e tomou aquele poder, seu poder. O chão deslocou-se sob ele, e sua perspectiva deslocou-se junto.

Ele era vasto, onicompreensivo. A magia de moldar que dedicara sua vida a dominar parecia agora uma fração do que era capaz, as escavações de crianças na areia. Conseguia sentir toda Orazca e além. Que tolos os Arautos do Rio haviam sido, ao deixar este poder parado e sem uso!

A cidade estava oculta, mas não era fortificada, e seus rivais sem dúvida já o rastrearam até o pináculo central. Kumena alcançara Orazca com facilidade demais, e eles chegariam logo. Conseguia senti-los, rastejando como formigas, embora fossem insignificantes demais para ele identificar quem entre eles era quem.

Ele flexionou os dedos, e a cidade deu um solavanco para cima, separando-se da rocha ao seu redor. O chão tremeu. Pináculos escondidos por séculos alcançaram o alto através da selva, e o pequeno cânion atrás da cidade escancarou-se mais e mais, cercando a cidade como um fosso. Rios mergulharam nele. Veios de ouro sob a terra rasgaram-se — riquezas vastas, não que Kumena se importasse. Era nada além de metal inútil para ele, apenas parte da generosidade absurda da cidade, pela qual não tinha necessidade ou uso.

Templo Alado de Orazca | Arte de Titus Lunter

As criaturas dentro da cidade agitaram-se. As formigas além dela deslocaram-se e correram em sua direção.

Todos estiveram correndo para a cidade dourada, mas a corrida terminara. A luta por Orazca começara, e Kumena não veria seu povo varrido da face de Ixalan. Muito pelo contrário. Muito pelo contrário, agora que reivindicara o que era seu por direito.

Fora de si mesmo, ao redor de si mesmo, banhado em luz dourada, Kumena começou a rir.

O Despertar de Kumena | Arte de Zack Stella

Sua risada foi cortada por um ruído atrás dele.

Kumena virou sua forma física, a que estava em cima do Sol Imortal, e travou os olhos com uma vampira.

Ela estava sorrindo, e seu colarinho estava coberto de sangue seco.

Kumena encolheu os dedos dos pés e centrou seu peso. "Não é seu para levar, vampira," avisou ele. "Uma conquistadora não é páreo para mim."

"Que tal dois?" ela provocou. "O que diz você, Mavren Fein?" lançou por cima do ombro.

"Digo que a Açougueira de Magan está certa aos olhos da Igreja ao limpar aquilo que está em seu caminho," uma voz disse em resposta.

Kumena viu uma segunda forma subir as escadas. Era um hierofante, com longos robes fluidos e um cajado mais alto que ele mesmo. Kumena começou a sentir medo.

Os dois vampiros investiram contra ele.

Kumena começou a conjurar uma defesa, mas foi derrubado no chão. Os vampiros arranhavam e mordiam, e uma de suas espadas cortou uma longa linha na lateral de Kumena. Ele tentou lutar contra os dois para se livrar, mas a cada empurrão eles estalavam as mandíbulas e tentavam mantê-lo no lugar. Mavren Fein e Vona puxaram-no para mais perto e avançaram com seus dentes brilhantes para o pescoço dele.

Não é assim que eu termino. Não permitirei a eles a satisfação do meu sangue!

Kumena debateu-se, lutando para sair do aperto deles, e olhou para a janela.

Vona riu acima dele. "Você não quer nos auxiliar em nossa missão mais sagrada?"

Kumena cuspiu no rosto dela, e o sorriso de Vona cresceu ainda mais.

"Então você morrerá de outra maneira," sibilou ela.

Ela agarrou a carne dele com força inatural e, antes que Kumena pudesse reagir, arremessou-o pela janela.

Os olhos de Kumena arregalaram-se e, enquanto caía pela janela, viu Vona acima dele, sorrindo com malícia maníaca.

Fome de Vona | Arte de Zack Stella
***

VRASKA

Jace jazia em agonia na margem do rio. Seu cabelo estava emaranhado com seu próprio sangue, e seus olhos brilhavam com magia descontrolada.

Vraska nadou em direção a ele, cuspindo água suja e semicerrando os olhos sob o spray da cachoeira. As rochas na base da cachoeira eram denteadas e massivas — era um milagre Jace ter sobrevivido.

Vraska sabia que um ferimento sério poderia causar perda de memória ou dificultar a resolução de problemas. Uma de suas colegas assassinas nos Ochran tornara-se impaciente após tal golpe quando era mais jovem. Jace era um telepata e um ilusionista — seu cérebro era seu instrumento. Vraska sabia que estava testemunhando o que acontecia quando aquele instrumento era danificado, e o resultado não era um enfraquecimento, mas sim o deslocamento de qualquer válvula que impedisse sua mente de se conter. Ele transmitia suas memórias agora em explosões e paradas, claramente tentando lutar para retomá-las sob controle.

Acabou, pensou Vraska. Ele vai lembrar de tudo — nossa briga, minha profissão, o título dele. Ele vai me odiar, com certeza. Górgonas foram feitas para serem desprezadas. Vraska praguejou e nadou em direção ao amigo com um sentimento fúnebre crescendo no peito.

Estava quase na margem agora. Uma dor aguda atravessou suas têmporas, e Vraska gemeu. Outra memória apareceu em sua mente —

Destroços do Portão Marinho | Arte de Zack Stella

A imagem era de um plano que Vraska nunca visitara. Havia uma barreira massiva feita de tijolo branco contra um céu turbulento. O lado direito do portão estava manchado com uma estranha mancha de bismuto, como se um grande pincel de doença tivesse sido pintado em seu topo. Havia uma brecha na entrada, e a água do mar jorrava para dentro de um porto demolido enquanto pedaços do portão destruído flutuavam para o alto e para longe no céu.

Vraska gritou de dor conforme a imagem rasgava sua mente. Parecia uma enxaqueca magnificada, uma dor perfurante e flashes de aura que ameaçavam congelar seus músculos enquanto lutava contra a correnteza.

Era menos uma ilusão e mais uma imersão. Sentia como se estivesse .

A imagem desapareceu quando seus pés tocaram o leito do rio abaixo. Gritou o nome de Jace para tentar distraí-lo, mas foi inútil.

Ele estava em agonia.

Enxurrada de Recordações | Arte de Magali Villeneuve

Vraska puxou-se para fora e escalou em direção a Jace na margem. Ajoelhou-se ao seu lado e tentativamente estendeu-lhe uma mão tranquilizadora.

Vraska cambaleou e amparou-se com as mãos no chão.

Jace —

— Vraska —

Vraska fechou os olhos com força. Não estava inteiramente certa de em qual ponta da troca ela estava. Era tremendamente desorientador.

Olhou para Jace com um vinco na testa. "Jace, precisamos encontrar quem quer que tenha despertado a cidade. Você precisa fazer uma ilusão para que nossa tripulação possa nos encontrar!"

O mago mental fechou os olhos e Vraska viu o que transbordava para cima e para fora de suas memórias.

O som do rio desapareceu e o ar quente da selva esfriou.

Arte de Karl Kopinski

Ela viu um interior escuro, paredes revestidas de aço e um homem metade metal. O ar tinha um gosto metálico, e havia luz suficiente na sala para ela distinguir as frestas entre as seções de metal do abdome do homem estranho. Jace estava no chão abaixo. Parecia magro e cansado do mundo, apenas alguns anos mais jovem do que parecia agora.

O homem ajoelhou-se. Agarrou o cabelo de Jace com um punho de metal brilhante.

"Vou garantir que você aprenda com este fracasso."

Vraska assistiu enquanto o homem levantava a camisa de Jace e arrastava uma manalâmina em linhas longas e retas como flechas pelas suas costas, e então uma única linha pelo seu antebraço direito. Encolheu-se de horror conforme Jace gritava. Seu fôlego parou na garganta e seu coração batia como um pássaro preso em uma gaiola. Ela sabia como era ser torturada. Sentiu-se horrivelmente culpada — como não reconhecera aquela dor compartilhada nele antes? A empatia apertou seu peito, e Vraska soltou um suspiro trêmulo. A visão de Jace e da faca trouxe de volta memórias suas que ela não ousava tocar, não agora, não quando suas mentes estavam misturadas assim.

O Jace real arquejou, e a percepção de realidade de Vraska oscilou de volta para a margem ensolarada do rio em Ixalan. Ele estava dobrado, as mãos agarrando seu próprio cabelo ensanguentado.

Vraska não tinha ideia do que fazer. Queria confortar mas não sabia como, então tentou convencê-lo a retomar o controle por meio das palavras.

"É uma memória, Jace — não está acontecendo agora. Você está seguro."

Vraska viu luzes cintilantes brilhantes e sentiu uma dor profunda na cabeça novamente. A essa altura já entendera que era isso que sinalizava outro influxo de imersão sensorial e preparou-se para o impacto. Cambaleou conforme outra ilusão tomava conta. O mundo ondulou, fluido como água, até assentar em uma ilusão de um beco sombrio.

Vraska suspirou de alívio. Uma visão familiar. Ravnica estava diante dela novamente.

Território Gruul | Arte de John Avon

O Jace à sua frente era pateticamente jovem.

Ele não poderia ter mais de quinze anos, e estava sentado em uma cadeira quebrada em meio a escombros. Vraska reconheceu a área como uma sob controle Gruul, dada a quantidade copiosa de árvores e edifícios recentemente destruídos. A luz do fogo filtrava-se através de lona esfarrapada pendurada, e um xamã Gruul de aparência exausta estava parado por perto ocupando-se com um encantamento em sua própria mão. Os braços do xamã estavam cobertos do ombro ao pulso com tatuagens das ruas da cidade.

O Jace adolescente sentado na cadeira tinha o visual de alguém que queria desaparecer e desejar que alguém mais imponente tomasse seu lugar. Sua roupa estava desarrumada, o corte era desconhecido. Vraska sentiu na tessitura da memória que esta versão de Jace chegara a Ravnica pela primeira vez apenas dias antes.

A mão do xamã Gruul brilhava em branco radiante. "Este é o seu primeiro?" grunhiu ele.

Levou um tempo longo demais para Jace responder. "Sim," disse ele timidamente.

Vraska não pôde deixar de sorrir para esta memória. Ele era o adolescente mais covarde que ela já vira — não admira que quisesse uma tatuagem legal. Era incrivelmente encantador. Lembrou-se de seus próprios anos de rata de rua jovem e sorriu com o pensamento de quão bem a sua versão adolescente e o Jace adolescente teriam se dado.

Teríamos destruído a cidade, pensou com hilaridade. Nenhuma livraria estaria a salvo.

"Então dê um gole nisso," o xamã disse na memória, apontando para uma garrafa à esquerda do jovem Jace-ilusão. "Isto vai doer como uma comédia Rakdos."

Vraska riu da comparação conforme Jace seguia as instruções do artista. Fez uma careta com o gosto (ela não o culpava por isso) e colocou um olhar de determinação.

O xamã inclinou-se sobre o adolescente e desenhou uma linha com o dedo pela bochecha de Jace, deixando uma tatuagem branca brilhante em seu lugar. Continuou em seu queixo e braço, e Vraska assistiu enquanto o xamã diligentemente pintava um rosto mais bravo sobre o próprio rosto do adolescente nervoso.

Ela vislumbrou o papel que o xamã referenciava. Uma série de símbolos estava esboçada às pressas nele — símbolos que ela reconhecia do manto futuro deste Jace. Um anel alongado, aberto na parte inferior, com um círculo flutuando no meio. Perguntou-se qual era seu significado.

A ilusão estilhaçou-se, depois desapareceu, deixando o rugido da cachoeira e o ouro cintilante de Orazca em seu rastro.

A percepção de Vraska estava oscilando, e tudo tinha um brilho artificial, como se as ilusões acidentais estivessem borrando a realidade mesmo agora. Suas mãos ainda agarravam a lama da margem do rio, agarrando-se fisicamente ao que era real.

"Jace, você está seguro e bem, mas preciso que você faça uma ilusão para que nossa tripulação possa nos encontrar."

Mas Jace ainda estava inalcançável. Seus olhos permaneciam brilhantes com magia, e a força não retornara aos seus membros. Vraska conseguia ver seu peito subir e descer com cada respiração estremecida. Ele inalou bruscamente conforme outra onda de memória o lavava, então ficou inteiramente imóvel em resposta ao que quer que estivesse vendo, seus lábios entreabertos em choque.

A luz acima deles escureceu conforme uma ilusão desta nova memória coalescia na existência, trazendo consigo o peso do crepúsculo e o perfume de maçãs maduras demais.

Vraska viu-se em um pequeno quarto com paredes nuas e duas cadeiras diante do fogo. Não tinha certeza de em qual plano estava, mas aquilo era irrelevante. Esta sala era um mundo em si mesma, a mobília seus continentes, o tapete seu oceano, como se nada fora do espaço importasse. Poeira agarrava-se ao parapeito da janela, e uma cesta de frutas meio vazia estava junto à porta, ostentando uma coleção de maçãs machucadas. Jace estava lá, naturalmente, e seu rosto estava iluminado pelo fogo de aparência aconchegante. A textura da memória era aveludada e acolhedora, mas Vraska não viu alegria na cena.

Jace estava sentado diante do fogo, de frente para uma mulher de violeta.

Arte de Mathias Kollros

Tudo na linguagem corporal da mulher exalava tédio, mas Jace estava inclinado para frente, absorto em interesse. Vraska sentiu-se profundamente desconfortável. Este era um momento íntimo. Ela não deveria ver aquilo.

"Nunca mais quero jogar xadrez," Jace disse, esfregando as têmporas.

A mulher o observava com intenso desinteresse. "Xadrez é tedioso," disse ela em concordância monótona.

O manto de Jace estava pendurado no cabide. Seus sapatos secavam junto ao fogo. Vraska sabia que não devia observar, porém sabia que não conseguia partir.

O dedo indicador esquerdo de Jace batia um ritmo rápido e inconsciente em sua coxa. Sua voz era tentativa. Incerta. "O que você disse lá em Innistrad, sobre quando eu morrer . . ."

O cabelo longo da mulher tombava sobre metade de seu rosto. Seu batom estava desbotado de fim de dia e seus olhos traíam uma indiferença que Vraska orou para que esta versão de Jace notasse.

"Você lembra daquela conversa?"

"Difícil esquecer uma conversa daquelas," disse Jace. "Você não mexe com sentimento a menos que seja sério. Então . . . você falou sério?"

"O quê?"

Ele pausou, cauteloso. "Você ficará triste quando eu morrer?"

Jace olhava para a mulher de violeta atentamente. Expectante. O estômago de Vraska revirou diante da estranheza da pergunta. Ele perguntara como se estivesse inseguro, embora o contexto do momento ao seu redor implicasse que ele e esta mulher eram mais que conhecidos.

A mulher de violeta olhou Jace nos olhos, pálpebras pesadas, joelhos descansando de lado. "Imagino que sim," disse ela. Um meio sentimento. Um osso para o cachorro. "O que tivemos, seja lá como você queira chamar . . . vale ao menos isso."

Vraska estava de boca aberta. É isso? A desdenhosa e cruel dispensa da mulher a um apelo honesto por afeto disse a Vraska tudo o que ela precisava saber sobre ela. Os tentáculos de Vraska deram nós de desconforto, mas ela não conseguia desviar o olhar deste pobre homem, desta mulher, desta sala pavorosa.

"Acho que é a coisa mais gentil que você já me disse," Jace respondeu.

A mulher de violeta riu. Como se fosse uma piada. Como se ele não tivesse dito aquilo com um anseio desesperado por sua aprovação escrito claramente em seu rosto.

Vraska sentiu-se como uma invasora de lares. Esta peça doméstica de profundo desequilíbrio não era para ela ver.

"Você deveria voltar. Os outros vão notar se você não for para casa esta noite," disse ela.

Jace deu de ombros. "Acabou de passar do pôr do sol. Tenho tempo."

"Ah." A mulher observou Jace, visivelmente pesando alguma decisão em sua mente.

Ela levantou-se subitamente e atravessou a sala em direção à sua penteadeira. Vraska desviou dela e assistiu enquanto a mulher abria uma gaveta. Tirou uma garrafa e dois copos e retornou para junto do fogo, destampando a garrafa habilmente com um movimento rápido. "Pelo que devemos brindar?" perguntou ela.

Você não serve um copo para alguém que quer que vá embora, Vraska pensou enquanto seu estômago afundava.

Jace estava sorrindo. "Um brinde, a Emrakul," ele gracejou, "por fazer o nosso trabalho por nós."

A mulher ergueu seu copo meio cheio e o brindou contra o dele.

Ambos beberam profundamente.

Ela reencheu os copos deles até a borda.

Beberam em silêncio.

O fogo estalava na lareira.

Vraska não conseguia tirar os olhos da outra mulher. Para alguém que odiava xadrez, ela certamente olhava para Jace com o escrutínio gélido de um grão-mestre.

Finalmente a mulher de violeta decidiu sua jogada, disfarçando sua sondagem com um gole letárgico de seu copo. "Viu alguém desde então?" Vraska ouvia o peso implícito naquele "desde então". A designação, o conhecimento compartilhado. "Você se deu bem com a mulher tritã," ela acrescentou deliberadamente. Peão em E4.

O jogo por trás da declaração fez Vraska querer sair da sala arranhando.

Jace girou o líquido em seu copo e seu semblante subitamente mudou. Olhou para a mulher de violeta. "Ela é casada."

"É?" a mulher disse, superficialmente satisfeita com a revelação. Sabia muito bem quão agressiva fora sua jogada de abertura. Cavalo em F3.

Jace assentiu. "Era uma estudiosa. Moralmente ambígua. Casada, e não o que procuro, mesmo se não fosse."

A mulher de violeta o observava de perto.

"E o que você procura?" perguntou ela.

Ela está manipulando você para ficar, Vraska queria gritar. Você é esperto. Ela não retribui seus sentimentos. Não caia nessa.

Jace recostou-se em sua cadeira e encarou-a sobre seu copo. Com grande apreensão e uma ausência inatural de lógica, sua resposta flutuou para fora. "Isto não é tão ruim."

O coração de Vraska doei. Isto era tão ruim, mas ele estava perdido demais para puxar a cortina do afeto e ver a crueldade entediada das intenções dela.

"Isto são apenas dois velhos conhecidos, relaxando após uma vitória," a mulher respondeu. "Recordando os bons velhos tempos."

Jace distraidamente puxou sua luva direita. "Aqueles dias nem todos foram bons."

"Nós também não fomos," a mulher disse em um tom baixo e perigoso.

Em um momento, o jogo se transformou, tabuleiro de xadrez jogado no chão, dados metafóricos sobre a mesa. Ela era uma jogadora, lançando uma oferta para mais uma rodada, mais uma aposta, só por diversão, vamos lá, rapazes, qual é o pior que pode acontecer.

"Não estamos juntos," a mulher de violeta acrescentou. "Mas você não precisa ir embora ainda."

Jace olhou para cima de sua bebida e encontrou o olhar dela com um visual esperançoso.

A mulher completou ambos os copos e ergueu o seu. "Aos novos bons velhos tempos," disse ela.

Para o alívio de Vraska, a ilusão dissolveu-se, e a margem do rio retornou.

Ilha | Arte de Dimitar

Vraska sentiu náuseas. Teria havido alguém na vida de Jace que não tivesse tentado tirar vantagem dele ou de seus talentos?

Estava começando a se preocupar. O ataque de recordações não estava diminuindo. "Jace, sinto muito. Não era para eu ver aquela última, mas sinto muito que aquela mulher . . ."

Um rugido distante a interrompeu. Vraska congelou, alarmada pelo ruído imenso na distância. Levantou-se e encarou a direção de onde viera. Era certamente um dinossauro, mas de um tamanho que ela não sabia que poderiam atingir.

"Jace . . . precisamos nos mover."

Jace arquejou de surpresa, os olhos ainda dilatados e azuis com a enxurrada de sua própria magia. Engasgou uma única palavra. "Vryn — "

— e uma estrutura circular massiva piscou na visão de Vraska.

Rede de Anéis de Mago | Arte de Jung Park

Este lugar era a ideia de beleza de Vraska. Uma fronteira rústica na borda da civilização. Soube sem dúvida que este era o plano natal de Jace.

Jace, ainda estou vendo o que você está vendo, não sei como ajudá-lo! Vraska pensou, desesperadamente, esperando que Jace pudesse ouvir e responder telepaticamente.

Tudo o que sentiu em retorno dele foi uma onda projetada de absoluto desespero.

Jace estava inteiramente fora de controle. Suas memórias mais antigas e profundas transbordavam de sua mente em um torrente difícil de acompanhar.

O rosto de uma mulher. Sua pele era rosada e salpicada de sardas, seu cabelo castanho puxado para trás de seus olhos cansados. Estava lendo para seu filho pequeno em um caderno enquanto vagava pela minúscula cozinha, explicando excitada uma nova técnica de cura enquanto descascava vegetais para o jantar. Uma casca caiu sobre a página como um marcador de livros.

A cena estava lavada com o cheiro de violetas. A mulher era adorável. Vraska não se importou com sua visão desta parte do passado de Jace — era bom ali.

A mesma mulher apareceu de novo, desta vez lutando para calçar um sapato no pé de uma criança. Seu filho choramingava e chutava antes de subitamente baixar-se para amarrar os próprios cadarços com mãos desajeitadas. A mãe assustou-se, como se nunca o tivesse ensinado a fazer aquilo.

Os flashes vinham mais rápido — a mesma mulher repetidamente.

Vestindo um casaco.

Escovando o cabelo.

Remendando a parede.

Marcando a página de um livro de anatomia.

Checando sob a cama do filho.

Limpando uma lágrima.

Beijando um hematoma.

A confusão de eventos cresceu mais caótica: um homem afirmando rudemente que estudiosos pertencem às cidades, não aqui, não seja preguiçoso, menino

o cuspe grudento das provocações de um valentão

uma barragem de termos acadêmicos telepáticos — Falácia de Holmberg e Lei de Sissoko e as Manobras de Recordação Menor e Maior

a percepção de que ele fora forçado a esquecer seu primeiro transplanar

e seu segundo

e seu terceiro

anos de treinamento e manipulação e a violação de sua mente toda vez que ele lembraria do que era

Um flash de realidade — o verdadeiro Jace estava no chão, as mãos no cabelo e a testa pressionada contra a terra. Estava consumido pelo ato de reviver, e Vraska percebeu em horror quantas vezes a mente de Jace fora violada. Viu sua maestria psíquica aos treze anos (Vraska estremeceu — como diabos ele podia fazer aquilo aos treze ?!), sua fúria ao descobrir o que fora tirado, sua desolação ao perceber quantas vezes fora manipulado.

Envolvendo, avassalando, dominando tudo . . . estava uma esfinge.

Tutela da Esfinge | Arte de Slawomir Maniak

O mundo ao redor deles levantou-se violenta e subitamente para tornar-se um telhado ao entardecer.

A percepção de Vraska deu um solavanco, e ela viu a memória através dos olhos de Jace.

Os mesmos anéis imensos de antes repetiam-se para longe e na distância, o céu tornou-se de um cinza furioso, gotas de chuva pesadas caíam como pelotas, e a esfinge Alhammarret estava agachada para atacar à sua frente. Ela sentiu os hematomas de Jace sob sua túnica, sentiu o suor de pânico na nuca dele apesar do frio cortante.

Sentiu a raiva passada de Jace fervilhar em seu peito. Viu como este mentor o traíra, o manipulara e moldara em uma ferramenta a ser usada em vez de um aluno a ser ensinado. Vraska perdeu-se na memória. Sentiu sua boca mover-se com as palavras de um adolescente. Sua voz era masculina, jovem, acabara de passar por seu ponto de ruptura pubescente. "Ajude-me a encontrar meus limites. Arranque a informação de mim!"

A esfinge ergueu-se nas patas traseiras, e Vraska sentiu quando eles mergulharam um na mente do outro.

Conflito de Vontades | Arte de Yan Li

Alhammarret pareceu congelar, sua mente tornando-se tão acessível quanto uma estante de livros. Profundamente dentro de seu cérebro havia uma estrutura etérea, sua construção complexa: mármore forrando um poço quase interminável. Vraska ficou cativada pela estranheza do que era empunhar uma magia tão diferente da sua. Ela e o Jace do passado ambos sentiram o estranho mármore do poço da mente de Alhammarret erguer-se para atacar. Em uma fração de segundo, um momento de instinto, Jace estendeu-se defensivamente com sua própria mente. Seu poder invisivelmente disparou como um punho, como um martelo, então multiplicou-se em um aríete, mirou toda a sua força na frágil mente da esfinge e quebrou-a.

Aquele golpe, na mente de Alhammarret, foi mais ruinoso que qualquer explosão, mais destrutivo que qualquer terremoto, mais calamitoso que qualquer meteoro. O que era um poço de mármore desgastado colapsou violentamente sobre si mesmo em uma implosão catastrófica que ensurdeceu os sentidos.

Mas Jace golpeara com avidez demais, com força demais, e suas próprias memórias foram arrancadas no processo de demolição psíquica.

Um longo lamento monótono arrancou Jace e Vraska da mente da esfinge e de volta para o telhado sob a chuva torrencial. O corpo massivo da esfinge estava caído, seus olhos abertos e arregalados de confusão. Alhammarret sugava o ar manualmente, empurrava-o para fora e começou a gritar. Era o uivo aterrorizado de um bebê. Um lamento assustado para um mundo grande demais e barulhento demais e assombrosamente desconhecido.

Ele parecia incapaz de manipular seus membros com qualquer agência e gritava ainda mais, suas asas massivas batendo contra o concreto duro do telhado. Após cada uivo, arquejava por mais ar e, a cada exalação, vocalizava seu terror e confusão.

O Jace do passado caiu de joelhos conforme suas próprias memórias se trancavam, e agarrou a cabeça da esfinge que soluçava em suas mãos, tateando em busca da bagunça quebrada da mente de Alhammarret para tentar montá-la de novo.

Fui eu quem fez isto, ela sentiu Jace pensar consigo mesmo, Fui eu quem fez isto.

Os gritos da esfinge não paravam. Ele encarava com olhos arregalados que não piscavam e continuamente uivava de horror por sua própria existência.

Vraska compartilhava o alarme de Jace. Alhammarret o arruinara, abusara dele, rasgara sua mente vez após vez, mas o que a esfinge sofria agora era um destino pior que a morte. Alhammarret merecia perecer, mas ninguém merecia aquilo.

Naquele momento, Vraska sentiu quando Jace começou a transplanar instintivamente para longe. A própria mente ferida de Jace ainda estava ativamente trancando-se; era como correr através de uma passagem de rochas denteadas e, quanto mais rápido Jace tentava caminhar entre os planos para escapar, mais memória era arrancada de suas laterais, raspada de sua psique e rasgada de si mesmo.

Fora-se o rosto de sua mãe, sua família, seu lar, seu passado.

Tudo o que restou foi a imagem do colarinho da esfinge, um anel alongado, aberto na base, com um círculo flutuando no meio. Na tessitura da memória — a única memória que lhe restaria — Vraska percebeu que aquele símbolo seria a única coisa que o ajudaria a preservar seu nome, mas nada mais.

Vraska sentiu-se arrancada da memória, expelida violentamente, e as ilusões do mundo passaram rápido e se dissiparam. Tão rápido quanto fora sugada, estava de volta às rochas e lama junto à cachoeira, de pé sob o sol sob os pináculos de Orazca. O Jace atual, o Jace que ela conhecia, o ilusionista, pirata e companheiro, estava perdido em luto na margem do rio.

Vraska mergulhou instantaneamente ao chão e colheu-o em seus braços.

Ele chorou o valor de uma vida inteira de lágrimas.

Ela o segurou apertado e aninhou a cabeça dele na curva de seu pescoço. Foi a primeira vez que tocou outra pessoa por vontade própria em anos. A sensação era estranha e alarmante, mas inteiramente necessária. Jace soluçava e soluçava em seus braços, e ela o apertava cada vez mais. Ele passara mais da metade da vida sem memória de toda a sua infância. Esquecera tanto. Esquecera tantas vezes. Ela o abraçava por todas as vezes que desejara que alguém a tivesse segurado quando estava presa. Abraçava-o por toda vez que pedira ajuda e fora golpeada em retorno. Passara tanto da vida sozinha e trancafiada que era impossível para ela negar conforto a alguém que, como ela, sofrera tal imensidão de dor.

Vraska olhou para cima e viu uma ilusão de si mesma.

A sujeira da margem do rio foi trocada pela luz do dia fresca do Mar dos Naufrágios. A górgona desabrochara em uma capitã e esta Vraska cantava uma música folclórica Golgari a plenos pulmões enquanto sua tripulação limpava o navio. Tudo naquele momento era feliz e em tons pastéis, e Vraska sentiu conforme o Jace do passado tentava cantar junto com a melodia estranha.

Vraska sorriu, pois lembrava daquele momento também. Lembrava-se de ter ficado surpresa que ele conseguia manter o tom tão bem quanto manteve.

A Vraska ilusória transformou-se, e a esperança de Vraska colapsou sobre si mesma.

A memória de Vraska tornou-se mais cruel, mais feia, rosante e furiosa. Seus tentáculos açoitavam o ar e seu vestido parecia feito de sombra. A sujeira de Ravnica agigantava-se sobre eles e Vraska viu a si mesma através dos olhos de Jace. Foi a primeira vez que se encontraram. A Vraska do passado apontava para Jace, mas parecia a Vraska que seu passado apontava diretamente para ela, pedindo um aliado para que ela não retaliasse com violência. Vraska sentiu o medo de Jace, sentiu sua apreensão e fúria. Ele não sabia o que ela pretendia pedir. Não sabia por que ela fizera o que fizera. Não sabia e, quando olhara para ela então, vira-a apenas como uma matadora, uma besta.

Vraska sentiu-se enjoada. Odiava ver-se dessa forma, como o monstro que o restante do mundo via quando olhava para ela. A górgona à sua frente estava preparada para matar e Vraska sentiu vergonha de ver-se pintada com tal malícia. Tudo acabara. Jace estava lembrando de tudo e, uma vez que fosse capaz de entender tudo, ele a veria como nada mais que um monstro, não importava quão maravilhosos os últimos meses tivessem sido.

A memória desapareceu e a margem do rio retornou.

Vraska soltou-o e recuou. As lágrimas convulsivas de Jace estavam diminuindo e a fadiga se instalava. As ilusões sumiram. O brilho da magia cessou. Jace afastou as mãos da cabeça e olhou para a mistura de seu próprio sangue e da lama do rio que os cobria.

Vraska queria abraçá-lo apertado até que estivesse inteiro novamente. Queria caminhar entre os planos para o canto mais distante do Multiverso. Queria tanto segurá-lo quanto desaparecer, e congelou no processo de decidir qual era a melhor opção.

Jace olhou para ela, e seus olhos estavam irremediavelmente vermelhos de luto.

"Você viu tudo," Jace comentou com uma voz vazia.

"Vi o que você não conseguiu conter."

Ele desviou o olhar, envergonhado. "Você é uma assassina," afirmou ele conforme a memória se assentava no lugar.

"E uma amiga," ela respondeu de forma direta, triste.

A consciência de Jace estava distante. Ele pode ter encontrado uma maneira de evitar que suas memórias transbordassem de novo, mas estava visivelmente lutando com seus pensamentos internamente. Sua voz permaneceu oca. "Emmara. Nissa. Tenho tão poucos amigos . . ."

O coração de Vraska doía. Não sabia o que dizer.

Fechou os olhos, fazendo uma careta de dor. O controle voltara. A tampa estava no lugar e ele parecia determinado a não mostrar mais nenhuma emoção. Ou isso ou simplesmente esgotara seu choro. Vraska sentiu que era o último — parecia que ele correra uma maratona. Decidiu que era melhor esperar por ele. Vraska tirou o casaco e torceu a água do rio para fora dele. Verificou se tinha hematomas e entorses, então esticou o pescoço em direção à escadaria que levava à cidade acima. Durante todo o tempo, Jace tentava se acalmar. De vez em quando, suspirava com o peso da memória, mas o pior parecia ter passado.

Balançou a cabeça com cuidado. "Não voltou tudo. Há lacunas. Não lembro de como perdi minha memória, ou de como vim parar aqui."

"Não cutuque suas feridas," Vraska disse baixinho, percebendo meio momento tarde demais quão estúpido e mundano seu conselho soava.

O que ela poderia dizer a alguém que acabara de recuperar tantas memórias difíceis?

Vraska sentou-se, escolhendo um lugar a vários passos de distância de Jace. O sol estava quente e ela já sentia a umidade do rio secando de suas roupas. Olhou para as tatuagens dele e reconheceu-as pelo que eram. O colarinho de Alhammarret, o símbolo ao qual ele anexara seu nome. Mesmo adolescente, Jace fora esperto o suficiente para marcá-lo em sua pele para garantir que nunca o esqueceria.

"Sinto muito por ter tentado te matar em Ravnica," disse ela.

Jace fez um som de dor e fechou os olhos, estremecendo com outra onda de dor. "Eu teria ouvido se você tivesse explicado o porquê." Mudou de posição desconfortavelmente. "As pessoas que você matou para atrair minha atenção naquela época . . ."

"Um assassino, um profanador e um traficante de inocentes, com nomes que soavam como planos." Deu de ombros e balançou a cabeça firmemente. "Não me arrependo da morte deles, mas me arrependo de ter pensado que era a única maneira de fazer você me ouvir."

"Eu te perdoo por tentar me matar," Jace disse suave e honestamente em retorno. "Você estava fazendo o que achava certo para o seu povo."

Nenhum dos dois conseguiu pensar em nada para dizer depois disso.

Vraska levantou-se e começou a caminhar pela margem do rio. Pela primeira vez viu bem a cidade de Orazca recém-visível.

As paredes e pináculos dourados alcançavam muito acima até das árvores mais altas da selva, brilhando à luz do sol. Vraska conseguia distinguir gravuras de grandes homens e mulheres em suas laterais. No centro da cidade havia uma torre que apequenava todas as outras.

Tirou a bússola e, com certeza, sua luz apontava uma linha reta como flecha em direção à torre.

Metzali, Torre do Triunfo | Arte de Victor Adame Minguez

De seu ponto de observação, conseguia ver uma escadaria interminável subindo do outro lado do rio recém-nascido até um arco acima que levaria para dentro da cidade.

Olhou de volta para Jace. Estava extraordinariamente parado, seus olhos olhando longe na distância. Parecia pregado no lugar na margem do rio, como se fosse tão pesado que nenhuma quantidade de vento pudesse arrancá-lo de seu luto. Vraska não pôde evitar encarar. Ele passara de prodígio infantil a espião e vítima, apenas para ter tudo exorcizado à força de seu coração e mente. Voltara-se, perdido e com medo, para pessoas que caçavam os perdidos e com medo. Fora torturado, ignorado, manipulado e, apesar de tudo, estava, no entanto, intacto. Sobrevera.

Ele era notável.

"Nunca conheci uma versão de mim mesmo com minhas memórias sem impedimentos," Jace disse, quebrando seu silêncio com uma honestidade cansada. "Tantas pessoas me manipularam para ferir tantas pessoas. E às vezes eu mesmo fiz de minha própria vontade. Foi tão fácil."

Vraska sabia em primeira mão quão fácil era.

Sentou-se ao lado dele.

"Você foi ferido e manipulado e abusado. Você deveria ter morrido tantas vezes e, apesar de tudo, fez o que teve que fazer e sobreviveu. Isso é um milagre que vale celebrar." A expressão de Vraska tornou-se séria. "Você lembra dos últimos três meses?"

Jace assentiu. Sorriu discretamente. "Foram os melhores três meses da minha vida."

Vraska não ousou piscar, para que o feitiço de total honestidade entre os dois não fosse quebrado. "Aquele Jace é uma das melhores pessoas que já conheci."

O olhar dele transformou-se em um encarar fixo. A expressão em seus olhos era de incredulidade. Era brilhante, afiado como uma adaga e radiante como um clarão, mas parecia não entender como o elogio poderia ser dirigido a ele. Como se já se tivesse desqualificado como digno de seu louvor.

Vraska despejou verdade em suas palavras enquanto falava. "O Jace que conheci ouviu-me de uma maneira que ninguém jamais ouviu. Você percebe quão especial isso é? Ninguém nunca ouviu minha história, ou se importou que eu tivesse uma em primeiro lugar." Ela viu o brilho de tristeza nos olhos dele conforme ele balançou a cabeça levemente, chateado por ela. Continuou: "Aquele Jace acreditava que todos têm dentro de si o poder de reinventar quem são. Aquele Jace ainda está em você, e acho que aquele Jace é quem você realmente é."

"É quem eu preferiria ser," disse ele.

"Você não tem voz sobre em quem se torna?"

"Quero acreditar que sim, mas como posso escolher ser quem você pensa que sou quando lembro de quantas vezes deixei pessoas tirarem vantagem de mim? De quantas pessoas feri . . ."

"Ninguém nunca escolhe ser uma vítima," Vraska interveio. "Você não é fraco porque tiraram vantagem de você. E a crueldade do que fizeram você fazer reflete neles, não em você."

"Não consigo evitar me sentir tolo."

"Eu sei. Mas você não é."

Jace silenciou-se por um momento, lembrando de algo que (felizmente) não transbordou para a mente de Vraska.

"Minha mãe — " a voz de Jace falhou levemente, e ele parou para respirar. "Minha mãe queria que eu me mudasse para a cidade para ser um estudioso."

Vraska sorriu. Suas palavras vieram lenta e deliberadamente. "Você se mudou para uma maldita cidade boa. E tornou-se um maldito estudioso bom," disse ela, fingindo não notar ele lutando contra a onda de emoção que sua afirmação simples causara.

Jace manteve os olhos fechados. "Costumava imaginar que meus pais me odiavam. Fazia-me sentir melhor sobre esquecê-los se fingisse que eram cruéis. Dessa forma, não importava o que escolhesse fazer, nunca sentia que estava decepcionando ninguém."

Vraska ficou impressionada com a honestidade dele. "Você sente que a decepcionou?"

Ele pensou sobre suas palavras antes de responder. Eventualmente, olhou para Vraska. "Eu sinto . . . que quero deixá-la orgulhosa."

Sua voz tornou-se esperançosa ao final. Feliz, quase. Aquele homem honesto que conseguia desmontar um telescópio e montá-lo de novo, que conseguia disfarçar um navio alto com a mente e lutar ombro a ombro em um saque, que se deliciava com quebra-cabeças e pirataria, ele estava lá afinal.

Vraska sorriu. "Então acho que você sabe exatamente quem deveria ser."

A escadaria dourada agigantava-se acima.

Vraska estendeu uma mão para ajudar Jace a se levantar. Apontou com a cabeça em direção à escadaria que tecia seu caminho penhasco acima até Orazca.

Ele tomou a palma dela na sua e levantou-se, fazendo uma careta com sua própria dor de cabeça e apertando a mão dela em agradecimento. Olhou para as escadas.

"Não teria tido forças para escalar isto há um ano," Jace disse com um pouco de orgulho. "Ou se tivesse, provavelmente teria desmaiado no meio do caminho."

"Você não estava tão fora de forma quando te vi da última vez," Vraska provocou.

"Você está ignorando o quanto eu costumava usar ilusões para parecer que estava em forma."

As sobrancelhas dela ergueram-se. "Sério?"

"Sim," Jace admitiu. Sua expressão estava desprotegida, olhos ainda vermelhos da emoção, uma inclinação leve em seus lábios. Desavergonhadamente humano. Abriu um sorriso largo. "Eu costumava ser um covarde."

Deixou o Não mais pairar não dito no ar entre eles, e Vraska captou seu sorriso conforme ele se virava para subir a escadaria dourada rumo a Orazca, um passo firme após o outro.

17 de Janeiro de 2018 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben

Vislumbre o Outro Lado do Sol

HUATLI

Destino Radiante | Arte de Emrah Elmasli

Huatli tinha oito anos.

Pequenas partículas flutuavam sob a luz solar da tarde e iluminavam o campo de treinamento com um brilho alaranjado na sombra de Tocatli. Uma dúzia de outras crianças sentava-se ao seu lado no ladrilho de pedra, suas mãozinhas agarrando armas de treinamento de madeira. Ela era jovem o suficiente para sentir-se compelida a fazer milhares de perguntas, mas velha o suficiente para saber esperar até que fosse apropriado. E assim ela sentava agarrando os dedos dos pés com suas mãos minúsculas, esperando o sacerdote do Império do Sol cessar seu monólogo. Ele dava uma palestra aos jovens futuros guerreiros sobre o aspecto tríplice do sol, e o fazia no tom monótono mais inimaginavelmente chato que Huatli já ouvira. Ela conhecia todas aquelas histórias de cor. Ela amava histórias.

"O que tem do outro lado do sol?" ela soltou.

O sacerdote piscou.

Huatli apertou os pés nas mãos e manteve um contato visual determinado.

O sacerdote suspirou. "Huatli, um dia você lutará com uma lâmina na mão e falará com o poder do sol. O que tem do outro lado não importa."

Huatli odiava quando mencionavam seu futuro. Tinha lições especiais com os sacerdotes e xamãs porque era boa em contar histórias, mas a irritava não poder passar aquele tempo com os outros futuros guerreiros.

"Mas eu quero saber o que tem do outro lado," disse ela, fazendo o melhor para disfarçar sua queixa com curiosidade genuína.

Os outros futuros guerreiros assistiam com irritação. Huatli corou.

"Huatli pode ser nossa futura guerreira-poeta," disse Inti, seu primo, em uma voz que era mais audaciosa do que a de um menino de oito anos tinha o direito de ser. "Não existem histórias sobre o outro lado do sol que ela deveria conhecer?"

O restante das crianças assentiu em concordância.

O sacerdote pareceu um pouco perturbado. Olhou para a instrutora marcial em busca de assistência, mas ela meramente deu de ombros. Ele franziu a testa e olhou Huatli nos olhos.

"Não existem histórias sobre o outro lado do sol."

Os outros jovens guerreiros soltaram um coro de desapontamento.

O sacerdote suspirou. "Nomeie as coisas que você consegue ver. Glorifique as coisas que você fez, e não desperdice tempo com o desconhecido."

Huatli estava confusa. "Mas e se eu honestamente quiser saber?"

O sacerdote olhou para a instrutora marcial com o tipo de derrota exclusivo de adultos cansados cercados por crianças.

A instrutora marcial bateu as mãos com autoridade experiente e falou com o restante dos jovens guerreiros. "Aprendizes! Formem duplas e pratiquem suas formas. O primeiro a ser derrubado fica com o serviço de limpeza."

O restante das crianças levantou-se às pressas e correu para o lado oposto da arena de treinamento, tagarelando ainda mais excitadamente por terem sido forçados a permanecer em silêncio durante toda a palestra. Huatli permaneceu, plantada onde sentava, encarando fixamente o sacerdote.

Ele suspirou e olhou para ela com uma exasperação vagamente parental. "Sentimos que você tem um dom com as palavras, Huatli. Se escolher tornar-se guerreira-poeta do Império do Sol, então quando o fizer, suas palavras tornar-se-ão verdade."

A menina franziu o cenho, confusa. "Isso significa que eu invento coisas?"

"Não. Significa que quando você conta histórias, está contando a verdade de alguém. É seu dever conhecer as experiências deles, e compartilhá-las de tal forma que nosso povo nunca esqueça as ações do seu sujeito." O sacerdote foi inflexível. "Se você viver uma vida de guerreira para o bem do império, verá claramente. Você deve ser a voz única gritando do topo da montanha. A voz do império, a voz de tudo o que importa."

Huatli mordeu o lábio. Não tinha certeza se ser uma voz no topo de uma montanha era o que queria. Pensou no sacerdote e na instrutora marcial, em sua tia e tio e em Inti. Pensou em todas as pessoas no império, e em como um dia elas ouviriam as verdades que ela contaria.

O império é o que importa, afirmou para si mesma. Não o que quer que exista além do sol.

***
Sol de Sangue | Arte de Emrah Elmasli

Angrath e Huatli estavam em uma clareira, agachados para manter o equilíbrio conforme a terra sob eles tremia violentamente. Observaram enquanto os pináculos dourados de Orazca subiam cada vez mais alto acima da copa das árvores do vale lá embaixo. Os pináculos pareceram puxar a cidade para cima, quebrando árvores e empurrando quantidades massivas de solo e rocha de lado conforme subiam.

O fôlego de Huatli parou no peito.

A cidade era mais bonita do que ela poderia ter imaginado . . . e não se parecia em nada com a cidade que vira em sua visão.

O chão parou de tremer e ela piscou para afastar uma lágrima. Estava ali. Arcos altos e entalhes do tamanho de uma casa, uma estrutura labiríntica com mais ouro do que ela jamais pusera os olhos. O lugar parecia pulsar com magia. Ainda estava a uma distância significativa de onde ela estava, cerca de meio dia de caminhada, mas ela estava mais perto de Orazca do que qualquer membro do Império do Sol estivera em séculos.

O minotauro à sua esquerda bufou de excitação. "Já estava na maldita hora." Ele começou a descer a encosta com passos pesados, determinado e impaciente.

Huatli lembrou-se de sua missão, e correu para alcançá-lo.

Sua mente corria. Ela a encontrara, mas isso significava que tinha que retornar? Não deveria explorar o interior para encontrar o próprio Sol Imortal? Huatli tentou conter seu júbilo mas falhou — um sorriso bobo estava estampado em seu rosto.

"Então lhe disseram para encontrar a Cidade Dourada como uma garota de recados?" Angrath escarneceu.

Huatli voltou à realidade. Guardou o sorriso. "Meu imperador encarregou-me disto. É nosso lar ancestral, e somos os governantes de direito de Ixalan."

As árvores estavam se fechando sobre eles. Galhos arqueavam-se no alto e os sons de insetos e pássaros inundavam os ouvidos de Huatli conforme caminhavam na sombra da copa da selva.

Angrath observava Huatli. "O que você ganha com isso?"

"Ganho meu título de direito," disse Huatli. "Venho treinando para me tornar a guerreira-poeta desde que era criança."

Angrath bufou.

Huatli franziu o cenho. "O quê?"

"Um título não lhe dá liberdade."

Ele chicoteou uma corrente para arrancar um galho do caminho deles. Huatli ficou irritada. "Você não entenderia. Será meu dever contar as vitórias do meu povo."

Angrath olhou para ela por cima do ombro. "Você precisa de um título para fazer isso? Você pensa como uma formiga."

Huatli sentiu-se mais que insultada, mas calou a boca. Sabia em primeira mão quão frágil era o temperamento do homem, e não ousava provocar este novo e estranho aliado a um novo ataque.

"O que quer dizer com 'Você pensa como uma formiga'?" perguntou ela com calma deliberada.

O minotauro girou os ombros, a cabeça de touro inclinando de lado a lado com um estalo. "Você apenas quer chegar ao topo do formigueiro e se parabenizar pela vista."

"Você está chamando o Império do Sol de formigueiro?"

O minotauro riu. Foi um ruído baixo e gutural que lembrou Huatli de um bramido de um pescoço-longo. "O Império do Sol são formigas em um formigueiro, assim como os Arautos do Rio e assim como Torrezon e assim como cada outro grupo de idiotas neste plano."

"Bem, ao menos você está insultando a todos nós de uma vez."

Angrath estendeu a mão e puxou o caule de uma flor massiva para o lado para deixar Huatli passar por baixo. "Meu povo valoriza a liberdade acima de tudo. Mataríamos por ela, Planeswalker, e todos entendem o porquê." Deu a ela um olhar sério. "Você amarrou para si mesma uma forca por causa de nada além de histórias lembradas pela metade."

"Histórias?" ela latiu. "Você está falando da minha história. Está falando de tudo pelo que vivo. Minha vida foi dedicada a encontrar as palavras certas, expressar nossas emoções coletivas, preservar a história do Império do Sol com verdade e orgulho."

O minotauro estava rindo discretamente. Huatli mordeu a língua. Ele sorriu para ela o quanto um minotauro conseguia. "E quanto aos Arautos do Rio? A história deles não merece ser lembrada?"

"Bem . . . sim. Imagino que mereça. Mas a guerreira-poeta não estuda a deles . . ."

"Vocês estão matando uns aos outros sobre quem é poderoso o suficiente para decidir o que a história é. Vocês discutem e cospem para decidir quem governará, mas ninguém é verdadeiramente livre. Quem é você para dizer que está certa, tola?"

Huatli sentiu-se em conflito.

Perguntou-se quem Angrath pensava ser para falar com ela de forma tão ríspida. Ele era rude e conciso, mas se estivesse dizendo a verdade, conhecia coisas que Huatli nunca concebera. Se ele vinha de um mundo diferente, talvez as coisas funcionassem de forma diferente de onde ele era. Huatli sentia-se como uma criança, insistentemente e impetuosa, proclamando audaciosamente sua própria importância. Desgostava da implicação de que deveria saber melhor, pois verdadeiramente, como poderia? O caminho que percorrera na vida fora delineado por muros muito mais altos do que ela conseguia ver por cima.

Um estremecimento percorreu seus ombros.

Angrath parou à frente. Olhou de volta para Huatli.

"Você sentiu isso também?"

Ela assentiu. Um pequeno formigamento desceu pelo seu pescoço e ela estremeceu apesar do calor da selva.

A orelha de Angrath contraiu-se. "Siga-me," disse ele.

Sol acima, como ele é rude, pensou Huatli com irritação.

O minotauro imobilizou-se, e Huatli sentiu uma súbita onda de calor à sua frente. O minotauro estava lançando um feitiço. Não, algo diferente. Conforme um brilho como o de brasas quentes começou a iluminar o corpo de Angrath por dentro, ela percebeu que ele pretendia que ela o seguisse de uma forma que ela só tentara uma vez antes.

Huatli concentrou-se. Tentou lembrar como olhar para o outro lado do sol.

Atingiu-a de uma vez, e o sentimento enviou calafrios pela sua pele e puxou seu peito. Era assustador e familiar, como tentar um salto mortal para trás, ou nadar sem tocar o fundo, e Huatli observou enquanto sua pele começava a brilhar com a luz radiante do meio da tarde. Sua percepção vacilou, e ela inclinou-se para frente em um reino separado. Era familiar agora, uma tempestade brilhante de cor e luz, e Angrath estava lá à frente dela. Ele caminhava para frente, alcançando uma saída.

Os pés de Huatli deixaram o chão da selva e pisaram no nada. Seu corpo era sustentado, mas a matéria aqui não tinha peso ou propósito. Viu correntes de azul em cada lado, e cada passo vibrava com uma energia que ela nunca sentira antes. O tempo era irrelevante ali.

Angrath gesticulou para ela olhar através de um portal à frente dele. O minotauro ainda tinha o efeito mágico de uma lareira de horas atrás, e Huatli percebeu que devia estar radiante demais para ele olhar diretamente.

Ela olhou através da janela aberta no ar.

Skybreen | Arte de Wayne England

Estava frio lá de uma forma que ela nunca sentira antes. Montanhas alcançavam as nuvens revoltas, e pedaços de branco caíam silenciosamente de um céu pesado.

Huatli estava fascinada. Inclinou-se para frente e foi imediatamente — violentamente — arrancada para trás.

Huatli rasgou através do espaço e da cor e de volta através do tecido da existência, caindo de costas na umidade pegajosa e no fedor de terra molhada da selva e aterrissando estatelada.

O agora familiar círculo dentro de um triângulo brilhou acima de sua cabeça.

Angrath estava parado perto dela. Mais acostumado à expulsão mágica, ele se preparara para o impacto. Olhou para baixo para ela com um triângulo iluminado próprio pairando acima de sua cabeça e um olhar de eu-te-avisei em seus olhos bovinos.

"Devemos estar perto do que quer que esteja nos mantendo trancados neste plano," grunhiu ele.

Huatli soltou um suspiro trêmulo. "Onde era aquele lugar?"

"Kaldheim," Angrath disse com força. "Outro plano. Você entende o que quero dizer agora?"

Huatli balançou a cabeça.

Angrath bufou. "A liberdade começa com saber quando você está preso."

A tarde sangrou em início de noite, e Huatli e Angrath caminharam lado a lado. O passo deles era rápido, pois Huatli sabia como navegar pela floresta tropical com facilidade. Quanto mais se aproximavam da cidade, mais o ambiente ao redor mudava. As folhas das árvores brilhavam com ouro, e fraturas na terra criavam desfiladeiros profundos que levavam a passagens douradas mais profundas.

Huatli estava preocupada com a intensidade de seus calafrios. Angrath murmurou algo sobre o Sol Imortal possivelmente lidar com a magia dos Planeswalkers, e Huatli suspirou. Tantos grupos achavam que o Sol Imortal fazia tantas coisas diferentes. Não havia como todas serem verdadeiras. Em certo ponto, Huatli perguntou para onde Angrath queria ir primeiro quando pudesse deixar o plano. "Quero ver minhas filhas" foi sua resposta concisa.

Huatli sentiu-se tocada por sua vulnerabilidade. "Quanto tempo faz que você não as vê?"

"Catorze anos," Angrath rosnou. Por um momento Huatli comoveu-se. Estava prestes a expressar suas condolências, mas foi interrompida pelo adendo de Angrath: "Elas beberiam o sangue do seu imperador com alegria, idiota."

Se qualquer coisa pudesse ter catapultado Huatli para fora deste mundo, a personalidade de Angrath teria feito.

Alcançaram uma estrutura emergindo do chão, um templo de tamanho modesto. Um design amplo adornava a frente — um morcego, seu rosto assustador esculpido em dobras de rocha. A deterioração da estrutura sugeriu a Huatli que aquilo não fazia parte de Orazca, mas era, em vez disso, uma tumba construída perto dela. A tumba parecia fora do tempo, estranhamente deslocada dentro da selva. Era impressionante. Inquietante.

Huatli diminuiu o passo até parar.

Lembrou-se de uma história antiga, há muito esquecida pela maioria, mas não por ela. Não pela guerreira-poeta do Império do Sol.

"O Morcego do Leste," sussurrou ela.

A orelha de Angrath contraiu-se. "Que morcego?"

Huatli apontou para a estrutura à frente deles. Estava coberta de videiras e desgastada pelo tempo, e a porta na frente fora deixada entreaberta em desalinho. "Existe uma lenda que diz que o morcego do Leste encontrou Aclazotz . . ."

O minotauro grunhiu. "Como o morcego foi parado na lenda?"

"Ela se colocou em um sono encantado."

Huatli caminhou em direção à entrada, fascinada pela perspectiva de investigar o templo. Se Orazca despertara, talvez este lugar tivesse despertado também . . .

"O que você está fazendo?!" Angrath gritou.

Estou vendo o que tem do outro lado do sol, Huatli pensou consigo mesma com um sorriso.

Aproximou-se da abertura do templo, mas subitamente recuou em choque conforme uma mão branca e pálida estendeu-se do interior. Huatli congelou conforme a outra mão, feminina, gentilmente agarrou a lateral da laje dourada.

Huatli imediatamente, silenciosamente lançou um feitiço para invocar o dinossauro mais próximo. Seu coração batia forte conforme seu chamado saía, e ela observou enquanto a mão erguia a laje para cima e para longe da entrada do templo.

O pânico de Huatli desapareceu conforme a figura caminhou para a luz, e seu queixo caiu em admiração.

Elenda, a Rosa do Crepúsculo | Arte de Chris Rahn

Era uma vampira, sem dúvida, com longas mechas encaracoladas e um rosto jovem que desmentia a natureza mortal de sua espécie. Tinha altura média, talvez ligeiramente mais baixa que a própria Huatli, mas portava-se com a postura da realeza.

O fôlego de Huatli parou na garganta. Olhou para Angrath, esperando que ele avançasse para matar, mas ele estava tão parado e congelado quanto ela.

"Você é Santa Elenda," Angrath disse distanciadamente. "Você é aquela de quem os vampiros nunca param de falar."

Huatli sentiu-se brevemente perturbada por Angrath conhecer uma lenda que ela não conhecia.

A mulher moveu-se deliberadamente, devagar, e olhou de Angrath para Huatli com um sorriso nos lábios.

"Orazca despertou finalmente."

Sua voz era leve e quieta. Um sino quebrando o silêncio.

Huatli guardou sua admiração e agarrou sua lâmina. Um rosnado baixo veio de vários metros de distância, e Huatli instigou seu dinossauro recém-invocado a agachar-se em preparação para um ataque. Sabia como lendas funcionavam; sabia melhor que qualquer outro como histórias começam e como evoluem. Quase todos os contos brotam da verdade, e Huatli raciocinou rápido que a lenda do Morcego do Leste começou com esta vampira muito real séculos antes.

A vampira permaneceu relaxada. Travou os olhos com Huatli, seu rosto a própria alma da serenidade.

"Por que você pega em armas?" perguntou ela com curiosidade simples.

Huatli franziu o cenho. "Recuso-me a permitir que a Legião do Crepúsculo tome a cidade. Vocês invasores merecem um destino pior que a morte!"

A testa da vampira franziu-se. Seus lábios estavam entreabertos, seu semblante magoado. Sua voz era sussurrada e de outro mundo.

"Somos invasores agora?"

"Conheço todas as histórias do meu povo sobre você e sua Legião do Crepúsculo," Huatli sibilou. "Gostaria de ouvi-las?"

A raiva de Huatli irrompeu. Recitou um poema que escrevera há apenas dois anos, deliciando-se com o fraseado amargo.

"Drapejados na sombra do Leste eles vieram
Em busca de um tesouro perdido no tempo
A rosa espinhosa, sangue encrustado manchou 'Adanto' ao nosso sul
Bebedores de vida, devoradores de nomes."

Angrath tremia de raiva e impaciência. "Não temos tempo para conversa fiada, Huatli. Precisamos tomar o Sol Imortal para podermos partir."

Elenda não deu atenção alguma a Angrath. Seu ar de calma foi substituído por uma fúria silenciosa. Estava visivelmente tensa, seus olhos dourados dardejaram de um lado para outro entre Huatli e Angrath. "Pelo que a Legião do Crepúsculo veio até aqui?"

Huatli cuspiu suas palavras com vitríolo. "Para tomar o que não é deles. Pelo que você achou que eles vieram?"

"Para recuperar a única coisa que é nossa," Elenda respondeu em um tom comedido porém zangado. "E para deixar todo o resto em paz. Essa era nossa missão mais sagrada."

Angrath rosnou. "Você deveria dizer isso ao restante dos seus comparsas. Huatli, vamos embora."

Huatli ignorou Angrath e apertou sua pegada na lâmina. Santa Elenda mantinha-se tensa como um gato da selva, como se a qualquer momento pudesse atacar com graça fluida e garras afiadas como estiletes.

A vampira mostrou os dentes. "Deixei a Igreja com o conhecimento do ritual para assumir meu fardo, e eles usaram isso para tornarem-se invasores?"

Huatli encarou. "O que eles deveriam fazer com o seu presente?"

"Eles deveriam aprender humildade."

O queixo de Huatli caiu. A Legião do Crepúsculo? Humilde?

"Eles deveriam buscar a salvação para todos nós," Elenda continuou. "Vejo que preciso ensiná-los o que esqueceram."

Elenda empertigou-se, e uma grande sombra caiu sobre seu rosto. Deu um passo à frente, passando por Huatli e Angrath, e desapareceu em um corte escuro no ar.

Um momento depois, a luz do sol retornou, âmbar e salpicada através das folhas acima, e a vampira se fora.

Huatli piscou, olhando ao redor em busca de um sinal para onde ela fora. "Ah, qual é!" suspirou ela, exasperada.

"Podemos ir agora?!" Angrath rugiu de desagrado e golpeou uma árvore próxima com uma de suas correntes. Ela rachou com o impacto e desabou na terra, dúzias de pequenos animais e insetos dispersando-se em seu rastro.

Huatli olhou furiosa para o minotauro. "O que foi isso?! Você só vai atrair atenção para nós!"

"Você se distrai fácil demais! Perdemos tempo conversando com a vampira!"

"Ela é uma santa viva a quem eu queria dizer umas poucas e boas!"

"Você trocar histórias não vale eu desperdiçar mais tempo nenhum!"

Angrath lançou uma corrente no rosto de Huatli que ela mal conseguiu esquivar, seu calor queimando sua bochecha.

Embora seus reflexos e treinamento permitissem que ela saltasse para trás, se endireitasse e sacasse sua lâmina com velocidade incrível, no momento em que ela conseguiu focar sua atenção em Angrath para contra-atacar, ele já virara e correra uma distância surpreendente em direção aos pináculos de Orazca.

Angrath (rude, incorrigível, frustrante Angrath) chegaria lá antes dela.

E Huatli não permitiria que isso acontecesse.

***

JACE

O interior de Jace fora afogado em emoção, espremido com força sufocante, preso a uma corda e estendido ao vento. Exaustão não começava a descrever quão esgotado ele se sentia.

Colocava deliberadamente cada pé à frente do outro conforme subia as escadas para Orazca, excessivamente ciente da presença de Vraska atrás dele. Jace estava cansado demais para sentir vergonha por ser incapaz de se controlar. Males do corpo manifestavam-se em febres incontroláveis. Fazia sentido que os males da mente de um telepata se manifestassem como . . . aquilo. Uma expulsão. Um derramamento violento de magia mental.

A maioria de seus pensamentos trabalhava furiosamente para catalogar e dissecar o fluxo de memórias que ainda jorrava. O poço de sua mente era imensuravelmente profundo agora, com texturas tão variadas e infinitas quanto as do mundo ao seu redor. Precisava focar em algo. Se não o fizesse, tinha certeza de que seria dominado pelo luto novamente.

(Um flash de memória: ele mesmo aos doze anos, sentado no canto do seu quarto, envolto em um cobertor de lã, limpando uma lágrima após o animal de estimação da família morrer.)

As memórias ainda vinham, mas ele conseguia contê-las agora. Chega de transbordamento psíquico. Nada mais para Vraska ver (graças a Deus). Sentia-se envergonhado por quanto ela vira, mas percebeu com crescente conforto com quanto ela podia se identificar.

Ela fora torturada também, afinal. Ela sabia.

Jace estava grato por ter um momento de repetição irracional para se permitir focar na organização mental. Um passo após o outro após o outro conforme subia em direção à cidade. Pé esquerdo. Pé direito. Pé esquerdo.

A longa escada de ouro sólido subia pela lateral do leito rochoso recém-exposto, serpenteando em curva após curva por sua face. Conforme Jace subia com Vraska logo atrás, conseguia ver grossos veios de ouro brilhando através da rocha. Sentia-se cada vez mais sem jeito a cada passo que dava, como se cada pegada fosse o equivalente a limpar os pés no tesouro de um estranho. Ouro era maleável e macio, e ele se perguntava se a cidade possuía alguma forma de contrapor magicamente o desgaste de séculos.

A ideia de ouro trouxe de volta indícios vagos de memórias horríveis ainda esperando para serem descobertas.

(Escamas douradas. Arenito. Calor. Areia áspera em seus lábios e em seus olhos e em sua garganta. Amigos quebrados, condenados. Ele tentava invadir a mente de um dragão. Sentir qual era o plano do dragão, impedi-lo de fazer mal, e por um breve momento, ele conseguira, vira o objetivo, o estágio final — )

Aquela memória era mais difícil de analisar. Jace tentou ver se conseguia recordar os detalhes.

(O dragão notou sua presença, e tentou retaliar lendo sua própria mente. Mas algo interveio conforme o dragão tentava a intrusão, e tudo escureceu.)

Sem sorte. Jace franziu o cenho, frustrado. Queria lembrar as partes no meio. Queria saber o nome do dragão dourado. Ansiava por juntar tudo para que tudo fizesse sentido.

Mas o pensamento de um dragão o lembrou de outro.

(Ugin estava se desdobrando dentro de uma grande caverna. "Boa sorte, Jace Beleren," disse ele em despedida, enrolando sua imensa cauda prateada ao seu redor.)

Jace piscou. Ugin. Aquele nome veio a ele facilmente, mas a textura desta memória era estranha. Tateou a conversa em sua mente e tateou suas bordas, inspecionando seus lados com o mesmo cuidado que tivera quando Alhammarret mexera com sua memória anos antes. Nunca confie em sua memória perto de nada mais velho que você. Jace fez uma careta ao perceber que nunca teria pensado em investigar se não lembrasse de ter aprendido aquilo da maneira difícil.

Ali. Um gatilho sensível. Um fio esperando para ser tropeçado, um pedaço inteligente de magia mental ofuscante que o dragão espírito deve ter implantado sem que ele notasse. O feitiço deixado para trás era um comando simples. Se alguém tentasse ler minha mente e encontrar este encontro com Ugin, a memória seria encoberta, e eu seria compelido a transplanar instantaneamente. Para cá. Para Ixalan.

Jace ficou preocupado. Por que Ugin precisou esconder minha memória dele? Por que comandar que eu viesse para cá, de todos os lugares? Eu seria uma isca?

. . . E o que eu encontrei na mente do dragão dourado antes de ele apagar a minha?

Colocou a memória tanto do dragão espírito quanto do dragão dourado de lado e resolveu ruminar sobre elas quando o tempo permitisse.

Ele e Vraska alcançaram o topo das escadas, as coxas queimando e corações batendo forte com o esforço da subida aparentemente interminável. Vraska alongou os tendões da perna, segurando-se em um pilar dourado para apoio.

Estavam na borda de uma vasta praça, e na outra extremidade havia uma torre massiva. Estavam cercados por todos os lados por passagens douradas após passagens douradas, um labirinto cintilante.

"Teríamos ficado presos ali se tivéssemos vindo por qualquer outro caminho," disse ela, dando um gole de água de seu frasco de quadril. "Obrigada por cair naquela cachoeira."

"Sem problemas," Jace respondeu seco. "Me avise se eu precisar me atirar pela lateral de outra."

Uma torre central dominava a visão deles. Vraska tirou a bússola taumática. Estava apontando diretamente à frente. Ela guardou a bússola e olhou para Jace. "O que precisamos está lá dentro. Consegue enviar uma ilusão para avisar a tripulação de onde estamos?"

Jace não estava ouvindo. Uma presença mental capturara sua atenção. Inclinou a cabeça na direção do ruído psíquico.

"O que foi?" Vraska sussurrou.

"É grande."

Jace lançou uma onda de ilusão sobre os dois. Veio facilmente agora, de alguma forma ainda mais do que antes de ele vir a Ixalan.

(Outra memória: horas e horas passadas memorizando textos e técnicas, seu eu adolescente ficando acordado até tarde na cama com uma lâmpada para estudar. O zumbido de um anel de mago lá fora. Procedimento de Millard. Manipulações Circunstanciais. Lei de Tricien. Repetidamente até que os nomes, técnicas e execuções de manobras psíquicas viessem tão facilmente quanto respirar.)

Vraska olhou em direção à escadaria que acabavam de subir e arquejou.

Uma imensa cabeça de dinossauro agigantava-se sobre a cidade.

Zetalpa, Alvorada Primal | Arte de Chris Rallis

Ela esticou as asas e lançou-se no ar. Cada batida de suas asas agitava as árvores, e Jace maravilhou-se com o modo como uma criatura tão massiva conseguia voar. A criatura navegou para o alto, predatória e alerta, mas Jace permaneceu imóvel. Ele e Vraska estavam seguros sob sua ilusão.

Naquele momento, Jace notou uma mudança dentro de si. O Jace de Zendikar e Innistrad e Ravnica tinha uma energia nervosa, persistentemente entediado e desastrosamente introspectivo, constantemente consciente do abismo de memória ausente que estava sempre no horizonte de sua mente. O Jace sem um passado era presente, alerta, confortável não importa a circunstância e pronto para encarar o que quer que viesse em seu caminho. Ele lembrava como era ser ambos, mas reconhecia quão mais natural era ser o último. No espaço de um momento, Jace surpreendeu-se consigo mesmo, e então percebeu que sua seriedade recente, de Ixalan, não fora fabricada, nem sua atenção plena era algo que ele só conseguia acessar em um estado de amnésia. Aquele era quem ele sempre fora. Ele apenas esquecera.

(Uma memória: sua mãe, chegando em casa após um dia de trabalho, vestida em seu avental de curandeira, olhando pela janela aberta para uma tempestade na distância com uma xícara de café aninhada nas mãos e um sorrisinho em seu rosto cansado. Ele ouviu as gotas de chuva gordas batendo no telhado de zinco. O ar cheirava a concreto úmido e lar.)

Jace sorriu. Gostava de poder lembrar de sua mãe.

Espero que ela esteja viva, pensou consigo mesmo.

"Ela se foi," disse Vraska, quebrando o feitiço.

Jace lembrou de onde estava e liberou sua ilusão.

"Você conjurou aquela ilusão mais rápido do que já vi você fazer antes," disse ela.

Jace assentiu com um sorriso discreto. "Consigo lembrar as habilidades que meu mentor me ensinou agora. Aprendi mais com ele quando era adolescente do que aprendi sozinho."

"Então o você adolescente tinha técnica mais refinada que o você adulto?"

"E agora o eu atual tem o conhecimento de ambos. É . . . estranho."

Vraska olhou-o nos olhos. "Você é incrível. Sabe disso, certo?"

Jace retribuiu o sorriso e sentiu as bochechas esquentarem. "Faço o meu melhor."

"Bem, o seu melhor é incrível," Vraska disse, virando-se em direção à torre central e aproximando-se de um grande portão no que parecia ser seu lado posterior.

Liliana nunca disse a Jace que ele era incrível.

Liliana teria desdenhado. Teria feito uma piada desdenhosa, revirado os olhos e o chamado de exibido. Não se daria ao trabalho de falar com ele por dias. Consumiria o corpo de um demônio com as mandíbulas de um crocodilo e riria sobre o som da carne rasgando. Faria todo tipo de coisas, mas nunca o chamaria de incrível.

Jace alcançou Vraska conforme ela caminhava, e aproximaram-se da torre central. Ela tirou a bússola taumática — seu ponto estava focado diretamente na porta posterior da torre à frente deles.

O céu acima estava tornando-se de um negro alarmante, e fumaça rodopiava ao redor do topo da torre acima deles. Jace e Vraska compartilharam um olhar preocupado.

"Será que os vampiros chegaram aqui primeiro?" Vraska perguntou.

As nuvens cor de tinta revoltas acima deram a resposta.

Vraska tentou empurrar o portão para abrir, mas estava trancado. Ela recuou e avaliou o padrão na frente da porta.

"É um labirinto," Vraska disse ao mesmo tempo que Jace. Olharam-se brevemente, sem jeito.

Vraska gesticulou para Jace. "Mãos à obra," disse ela. "Você é o cara do labirinto."

Jace começou a traçar a solução para o labirinto, uma linha azul seguindo magicamente seus dedos conforme se moviam. O negro revolto no céu acima o inspirou a apressar o passo.

"Sou eu," disse ele com diversão. "Jace Beleren: Pacto das Guildas Vivo, telepata, ilusionista, cara do labirinto."

"Dá para cansar só de falar."

Portal de Azor | Arte de Yeong-Hao Han

Seus dedos encontraram o fim do labirinto no centro da porta. As entranhas de Jace caíram até os joelhos. Estendeu seus sentidos para ver quem estava do outro lado da porta e lançou um escudo mental ao redor de si e de Vraska.

"O que houve?" perguntou ela. Jace percebeu que seu queixo estava caído. Apontou para o símbolo na porta.

"Aquele é o símbolo que aparecia sobre nossas cabeças toda vez que tentávamos transplanar," disse ele. "É o símbolo dos Azorius."

Vraska franziu a testa. "Os Azorius estão em Ravnica."

O estômago de Jace deu voltas. Com uma varredura mental rápida, sentiu que alguém estava na sala. Olhou para Vraska com apenas um indício de pânico. "Houve algum Planeswalker Azorius famoso?"

Vraska franziu a testa. "Não sei. Não existe exatamente um índice."

"Teria que ser alguém alto na organização. Alguém que visse aquele símbolo como sua própria identidade pessoal," disse ele, pontuando sua afirmação apontando para a porta à frente deles.

"O parun dos Azorius era Azor."

Jace varreu a sala novamente e congelou. Não sabia quem estava lá dentro, mas instantaneamente soube o que estava lá dentro. A mente desta pessoa era familiar, labiríntica, uma mente como apenas uma que ele já encontrara antes.

Azor era uma esfinge? perguntou a Vraska na mente dela com pavor sussurrado.

Ela olhou de volta para ele com preocupação. Sabia o que esfinges significavam para ele. Bateu o dedo na lateral da cabeça, e Jace escutou mentalmente.

Você nunca mais será ferido por uma esfinge, disse ela com determinação. Um indício cruel de âmbar brilhou nos olhos dela.

Jace poderia tê-la abraçado ali mesmo. Lembrou-se das preferências dela, e contentou-se com um sorriso de agradecimento.

Vou começar a carregar para petrificar, Vraska disse. Dê-me a palavra e ele está morto.

Jace assentiu. A ansiedade roía seus nervos, e sua boca tinha o gosto do medo metálico baço.

Empurrou a porta e observou-a ranger ao abrir, peneirando poeira conforme revelava a câmara lá dentro.

A sala era longa e coberta de videiras. Um trono imenso estava na extremidade oposta, e um disco brilhante massivo estava incrustado no teto acima. Grama seca e pano estavam espalhados na base do trono e, conforme Jace e Vraska abriam a porta, viram uma figura massiva erguer sua cabeça barbada.

Azor, o Legislador | Arte de Ryan Pancoast

"Quem se aproxima?" disse a esfinge. Sua voz era áspera de desuso, mais rosnado animal que fala humana.

Vraska deu um passo à frente, confiante e calma, cada grama da capitã que era. "Dois estranhos a este mundo. Diga-nos seu nome, saia do caminho e entregue-nos o Sol Imortal se não deseja morrer."

A esfinge olhou-os com severidade. Era imensa, e mantinha-se com uma tensão predatória que contrastava com a sabedoria de seu olhar.

"Sou Azor, o Legislador," rosnou ele, inclinando a cabeça enquanto encarava Vraska. "E você será uma prisioneira pela terceira vez em sua vida, górgona."

Jace lançou uma barreira psíquica entre a esfinge e Vraska. Ela ficara imóvel de surpresa com a intrusão mental da esfinge, chocada que ele mergulharia em sua mente sem pensar duas vezes.

Ele é tão parecido com Alhammarret, Jace pensou, seu peito apertando-se com a dor da memória. Guardou seu medo. Ele não era governado por uma esfinge. Não mais.

"Você se referirá a ela como Capitã," Jace disse em um tom comedido.

A esfinge rosnou e olhou além de Vraska para Jace. "E o que isso faz de você?"

"Sou Jace Beleren, o Pacto das Guildas Vivo," disse ele com confiança.

As asas da esfinge estremeceram. "O mecanismo de segurança?!"

"O pirata."

24 de Janeiro de 2018 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben

O Árbitro da Lei Deixou o Caos em seu Rastro

HUATLI

Huatli praguejou entre dentes conforme disparava através da selva em direção aos distantes muros dourados de Orazca.

Ela mal conseguia distinguir a forma pesada de Angrath traçando uma linha através da espessura da floresta tropical à frente e, na periferia em ambos os lados, via o flash de escamas prateadas familiares.

"Pare bem aí!" Huatli rosnou, seus olhos brilhando em um âmbar quente enquanto agarrava o ar com o punho. Meio segundo depois, um dinossauro massivo saltou à vista. O dinossauro rapidamente fechou a distância entre si e Angrath, então sem esforço o derrubou e o prendeu sob as patas.

O minotauro rugiu de frustração, e Huatli instigou o dinossauro a rugir de volta.

Angrath silenciou-se. Ele arquejava pesadamente e grunhia sob o peso do dinossauro.

"Você o tem sob controle?" perguntou uma voz idosa atrás de Huatli.

Tishana caminhava para frente através da espessura da floresta tropical, um sorriso astuto repuxando os cantos de sua boca. Atrás dela, Huatli viu as silhuetas de dúzias de tritões de prontidão.

Huatli assentiu. "Sim, tenho. Obrigada, Tishana," respondeu ela.

Tishana mudou o peso de um pé para o outro.

Huatli acalmou seu coração acelerado. Perguntou-se se a anciã tritã poderia sair correndo de novo, e estava meio certa de que deveria deixar Angrath sob a pata de seu dinossauro e juntar-se aos tritões se Tishana partisse para a cidade.

"Nosso acordo acabou, então?" Huatli perguntou em um tom firme.

Tishana balançou a cabeça. "Reuni meu clã. Nosso acordo permanece. Agora que a cidade está desperta, ela é um farol. Outros pretendem reunir-se, atraídos por sua luz — assim como você, pequena mariposa."

Huatli piscou através de outra onda de dor de cabeça. A metáfora da mariposa não lhe caiu bem.

Tishana aproximou-se, preocupada. "Você não está bem."

Huatli desdenhou. "Estou bem. Quanto mais nos aproximamos da cidade, mais minha cabeça dói, só isso."

"Você e o pirata derivam em correntes semelhantes," Tishana disse cripticamente. "O que você vê quando vislumbra além do nosso véu?"

"Minha corrente na sua cara!" gritou Angrath debaixo da pata do dinossauro. Huatli moveu o pulso e seu dinossauro o empurrou mais fundo na terra.

Ela virou-se de volta, ignorando o grito abafado de Angrath em resposta. "Ouço histórias de outros mundos," disse ela a Tishana.

Tishana pousou a mão no ombro de Huatli. Seu rosto era sereno e gentil, a própria alma da sabedoria. "Então devemos garantir que você consiga ouvi-las na íntegra, Guerreira-Poeta."

O coração de Huatli subiu à garganta. Ajoelhou-se ao lado de Angrath, que ainda tentava se contorcer para sair debaixo da pata de seu dinossauro.

"Angrath, sinto muito, mas preciso ir com Tishana. Tivemos um trato primeiro."

Angrath tentou gritar com ela com o rosto cheio de húmus.

Huatli pousou a mão em seu dinossauro e deu-lhe um breve comando. "Você será solto em trinta minutos. Sinto muito!"

Huatli assobiou, e um dente-de-lâmina trotou da floresta tropical em sua direção. Ela subiu em suas costas com facilidade e partiu ao lado de Tishana antes que tivesse que ouvir mais das objeções furiosas e indistintas de Angrath.

Tishana alcançou-as rapidamente, montando o mesmo elemental de antes.

O tempo se alongou conforme se aproximavam. Os pináculos cresciam mais perto, o sol subia mais alto no alto. Huatli mantinha um passo rápido para ficar à frente de Angrath, bem ciente de que o perigo jazia tanto atrás quanto à frente.

O ouro da cidade refletia a luz do sol e o calor que vinha com ela e, após algum tempo, Huatli piscou para afastar o suor dos olhos conforme passava pelo portão da cidade dourada.

Orazca era magnífica, uma paisagem urbana apinhada de muros brilhantes e entalhes imensos. Huatli se perguntara se pareceria um retorno ao lar, mas parecia, em vez disso, como visitar um parente distante. Era familiar porém aliena, um lugar para ela e no entanto não onde ela deveria estar.

Tishana e Huatli avançaram pela via principal, passando por uma série interminável de becos e ruas laterais. Os muros eram altos, mas bem à frente conseguiam distinguir um edifício central, e Huatli soube em seu íntimo que estava de alguma forma destinada a entrar naquele edifício.

Pelo canto do olho, Huatli viu Tishana apontar para o céu.

O céu tornara-se escuro como xisto de rio, e nuvens espessas subiam do pináculo principal de Orazca como fumaça de uma fogueira. A visão daquilo encheu Huatli de pavor. "O que está acontecendo?" perguntou ela acima do som de sua montaria pisando nos ladrilhos de ouro imaculados da praça em frente à torre.

A torre à frente parecia estar manchando o céu de um negro cor de tinta. Huatli arquejou ao ver um corpo começar a cair do topo da torre.

"NÃO!" Tishana uivou à sua direita, e Huatli sentiu uma onda imensa de magia conforme Tishana bateu as mãos estendidas à sua frente. A descida do corpo desacelerou e então parou completamente conforme uma rajada massiva de vento ergueu-se para amortecer a queda, e um manto de poeira e folhas assentou ao redor da pessoa que caíra conforme ela lentamente pousou no chão. O elemental de Tishana partiu em direção à torre, deixando Huatli no lado oposto da praça.

Huatli gritou o nome de Tishana, mas sua voz foi abafada pelo estouro de tritões que correram para cercar Tishana e o corpo.

Huatli instigou sua montaria a correr para frente. As pegadas de seu dinossauro bateram um ritmo rápido contra o ladrilho de ouro do chão, desacelerando conforme se aproximavam da multidão de tritões preocupados. Huatli preparou-se para o pior. Como guerreira, ela não era estranha a carnificina, naturalmente, e preparou-se para uma visão macabra, mas o corpo à frente estava em grande parte ileso exceto por uma mancha de sangue sob o queixo.

Huatli desmontou e aproximou-se. Tishana sussurrava para o homem no chão enquanto vários outros tritões operavam um feitiço de cura nele.

"Kumena, estamos aqui. Quem está na torre?"

O tritão no chão abriu os olhos trêmulos. Sua pele estava menos opaca do que deveria estar e, ao erguer a cabeça, um rastro de sangue fluiu de sua boca para o peito. "Quem você acha?" sussurrou ele.

Huatli franziu o cenho. O pulso de magia negra acima dela só podia significar que a Legião do Crepúsculo tomara o controle do Sol Imortal e, assim, aparentemente, da cidade junto com ele.

Tishana deu uma ordem breve aos tritões ao seu lado, então olhou de volta para Huatli.

"Podemos tomá-los juntas," disse ela. "Resolveremos a posse da cidade a partir daí."

Huatli sorriu.

Um ruído distante captou sua atenção. No sombrio tempo nublado, ela mal conseguia ver um grupo heterogêneo correndo em direção à torre. Uma sirena voava no alto, uma mulher familiar agarrada a um braço cheio de lona desgastada avançava abaixo e, à frente, estava um goblin maltrapilho e de aparência louca. O goblin balançava uma espada mais longa que ele mesmo no ar. Ele gritava com abandono conforme avançava. "NÓS QUERER SOL! NÓS QUERER SOL!"

"Piratas," Tishana sibilou. A tritã agarrou Huatli pelo ombro e a puxou escadaria acima, lá dentro.

"Depressa!" gritou ela, e Huatli seguiu o exemplo.

Suas pegadas bateram um ritmo constante conforme ela corria torre acima.

Metzali, Torre do Triunfo | Arte de Victor Adame Minguez

Tishana estava logo atrás. Ela segurava o totem de jade que continha o elemental que montara. A escadaria parecia interminável e, a cada poucos passos, conseguiam ver um céu sombrio e imponente lá fora através de uma janela em fresta. A respiração de Huatli estava pesada pelo esforço, seu coração tentando furiosamente acompanhar o ritmo de seus pés. Conforme subiam mais e mais, ela tornava-se cada vez mais ciente de que poderia não voltar para casa viva.

Finalmente, a escadaria terminou; uma porta massiva no topo da torre estava entreaberta. A entrada era quatro vezes mais alta que Huatli e, por um momento, ela ficou atônita, de boca aberta, diante da majestade arquitetônica que seus ancestrais criaram.

"VILÕES!" Tishana berrou, saltando por Huatli para dentro da câmara à frente. Huatli assistiu enquanto ela lançava o totem de jade primeiro com uma mão e começava a despertá-lo com a outra.

Huatli voltou ao presente. Maravilhar-se depois. Chutar os vampiros para fora agora.

Correu pela porta e avaliou os arredores.

A sala era grande e arejada. Era, como tudo o mais nesta cidade, revestida com uma quantidade impiedosa de materiais finos, mas neste caso construída para cercar uma peça central no chão. No centro da sala estava um disco incrustado no jade do chão. O disco era tão largo quanto Huatli era alta, e brilhava em um branco-azulado frio sob os pés de uma conquistadora ameaçadora. Uma segunda vampira (hierofante, lembrou-se brevemente) estava por perto, segurando um cajado em desafio.

"Sou Vona, Açougueira de Magan, e o Sol Imortal pertence à Legião do Crepúsculo!" gritou a mulher no centro da sala. Huatli a reconheceu como a vampira suada da selva.

Huatli olhou para o que estava sob os pés da vampira e arquejou. Lá estava ele, incrustado no ouro cintilante do chão, real como nunca; o disco só poderia ser o Sol Imortal.

Huatli ficou de boca aberta. "Colocaram-no no chão?!"

Tishana já escolhera seu alvo na sala. Seu elemental crescera novamente e investiu contra o flanco de Vona enquanto ela estava sobre o Sol Imortal.

Huatli travou os olhos com o hierofante masculino parado perto da borda do Sol Imortal. Ele baixou o cajado e mostrou os dentes, e Huatli atacou.

Manteve seu centro de gravidade baixo conforme cortou a sala diretamente em direção a ele. O sacerdote vampírico estendeu a mão em garra em resposta e mergulhou em direção ao rosto dela, mas Huatli caiu de joelhos e deslizou por ele, atingindo seu tornozelo com sua lâmina conforme escorregava no jade frio do chão.

O hierofante rosnou. Huatli agarrou o manto dele e o arrancou para o chão, e o estalo de sua cabeça contra o solo foi alarmantemente alto. Huatli o prendeu com a mão direita e ergueu sua lâmina na esquerda.

"VOCÊ!" gritou uma voz do outro lado da sala. Huatli olhou para cima em surpresa, e foi atingida no peito com um chute do hierofante abaixo dela.

Huatli aterrissou de costas com um clangor duro de sua armadura. Fez uma careta, então olhou para cima e travou os olhos com Vona.

A conquistadora sorriu maliciosamente e ergueu uma mão de unhas afiadas, pronta para golpear. "Sou a Ceifadora de Pecadores e Conquistadora de Orazca!"

Fumaça escura e sem cheiro inundou a sala, e Huatli gritou conforme uma onda de dor assolou seu corpo. Escalou até ficar de pé mas caiu novamente de mãos e joelhos, seus músculos tremendo e seu fôlego preso na garganta. Huatli olhou para sua mão e viu que estava roxa e marrom com o que pareciam hematomas vivos.

O terror encheu seu coração. Vona estava usando o Sol Imortal para manipular seu sangue.

Huatli tentou procurar por Tishana, e viu a anciã tritã ser puxada para o chão pelo hierofante.

"Tishana!" Huatli gritou, mas a exclamação foi cortada pelo seu próprio grito conforme um filete de sangue correu pelo seu lábio.

Vona ria enquanto caminhava até a borda do Sol Imortal mais próxima de Huatli e ajoelhava-se.

"O que houve?" perguntou ela a Huatli em uma voz melodiosa e assustadora. "Você está desconfortável?"

Subitamente, uma canção encheu a sala.

Era a voz de um homem cantando, melódica e suave.

Huatli congelou, transfixada. Percebeu que Vona ficara imóvel também, junto com Tishana e o hierofante.

A canção era bela, encantadora de uma forma que ela não conseguia identificar. Tinha que ir até ela. Tinha que estar mais perto de sua fonte. Huatli girou a cabeça, tropeçando para fora do aperto desajeitado de Vona conforme a vampira também começava a buscar a fonte da canção.

Salteador Sirena | Arte de Tomasz Jedruszek

Uma figura pairava logo do lado de fora da janela, batendo asas azuis para manter-se no ar. Durante todo o tempo, ele cantava uma melodia mais confortante que uma canção de ninar e mais preciosa que uma oração.

Vona, Tishana e o hierofante avançavam, acotovelando-se para chegar mais perto da canção milagrosa. Vona empurrou seu caminho para a frente, seus olhos arregalados de desejo. Ali, a apenas palmos de distância da janela aberta, estava uma sirena emplumada, o pirata do Beligerante, e agarrado ao seu pescoço estava um goblin de aparência maníaca.

Em algum lugar no fundo de sua mente, Huatli percebeu o que estava prestes a acontecer. O goblin saltou para frente no rosto de Vona.

"VIOLÊNCIA!" gritou ele.

A canção parou, e a sirena comemorou. "Vá nos olhos, Breeches!"

Huatli despertou de seu estupor e tentou correr para o Sol Imortal enquanto Vona gritava.

O goblin estava cravando as garras e arranhando o rosto da mulher vampira, rindo o tempo todo.

Nesse momento, o chão estremeceu e Huatli ouviu um barulho alto de batida. Todos na sala giraram a cabeça para encontrar a fonte do clamor.

As portas douradas da sala jaziam caídas no chão e, sobre elas, uivando em fúria, estava Angrath.

Angrath, Pirata Minotauro | Arte de Chris Rahn

Huatli reconheceu o cheiro de carne queimada justo quando o minotauro casualmente atirou para ela a cabeça carbonizada do dinossauro que ela designara para ficar em cima dele. A cabeça atingiu o chão com um estalo carnudo.

"Você é HORRÍVEL!" Huatli gritou para Angrath.

"VOCÊ FEZ SEU DINOSSAURO FICAR EM CIMA DE MIM!" ele uivou de volta antes de fixar os olhos na conquistadora com o goblin no rosto.

Angrath mirou suas correntes incandescentes em Vona. As correntes enrolaram-se em Breeches, que gritou e praguejou ao ser arrancado para trás. Ele imediatamente recuperou o equilíbrio e investiu contra Angrath.

Conforme Angrath e o goblin brigavam, Huatli buscou por Tishana, que acabara de ter sucesso em prender o hierofante com algumas videiras crescendo de uma rachadura no teto.

Tishana olhou para Huatli, então olhou para o Sol Imortal no chão e para a vampira sendo arrastada para fora dele. Huatli olhou para Angrath, que brevemente olhou para Tishana e de volta para o Sol.

Todos pararam, então moveram-se ao mesmo tempo em uma correria louca.

De uma vez só, Tishana mergulhou para frente e bateu a mão no Sol, Huatli chutou o pé para tocar sua lateral, Angrath pisou com força no centro e Vona bateu ambas as mãos em cima dele mais uma vez.

Os quatro arquejaram conforme uma corrente imensa de energia passou através deles.

Huatli riu alto de quão maravilhoso aquilo parecia.

Huatli, Campeã Radiante | Arte de Chris Rahn

Sua percepção espalhou-se pela cidade, sua alma espalhou-se fina e larga sobre a magia incrustada na cidade de seus ancestrais. Subitamente ela conhecia cada caminho, sentia cada corrente de energia e percebia os limites de cada edifício e o alcance de cada pináculo. Mas o mais maravilhoso de tudo, ela percebeu cinco batimentos cardíacos imensos, um em cada canto da cidade.

Os Dinossauros Anciões despertaram, pensou Huatli, e uma lágrima correu por sua bochecha. O conto dos Dinossauros Anciões levara o tempo mais longo para memorizar, dois anos agonizantes para trancar em sua mente em sua totalidade. Eram antigos e selvagens, inteiramente indomáveis, os maiores dos dinossauros. Ela chamou os Dinossauros Anciões para si, e sentiu o chão tremer conforme eles começavam a se aproximar. A alegria de Huatli a dominou e ela continuou a rir . . .

Mas ali, logo além da borda da cidade, sentiu as pegadas do exército do Imperador Apatzec. Um exército que ela não pedira. O sorriso de Huatli caiu. Sentiu-se estúpida. Deveria saber que ele não enviaria apenas ela.

Lembrou de onde seu corpo estava, e trouxe sua atenção de volta para a sala no topo da torre.

O Sol Imortal brilhava ferozmente sob os quatro. Angrath tinha um pé no Sol Imortal e um pé no chão normal, e o calor magnificado de seu corpo fizera seu outro pé afundar através do ouro. Os pés de Tishana estavam cimentados ao Sol Imortal através de uma série de videiras entrelaçadas. Vona debatia-se, atraindo mais fumaça escura para si. Cada um deles preparou uma arma, e seus olhos dardejaram de pessoa para pessoa.

Huatli apertou sua lâmina e lentamente empertigou-se. Sua mente zumbia com a energia da cidade e o puxão distante dos Dinossauros Anciões. Avaliou silenciosamente a ameaça representada por cada inimigo.

Vona estava exausta e poderia ser facilmente descartada. Tishana olhou brevemente para ela, mas Huatli não conseguiu ler sua intenção. Angrath fervilhava, como sempre. A sirena e o goblin Breeches estavam do lado de fora, claramente querendo que os outros batalhassem para que pudessem mergulhar como os piratas que eram. O hierofante permanecia preso à parede com videiras.

Huatli agachou-se para atacar. Travou os olhos com Tishana à sua frente e assentiu levemente com a cabeça em direção a Vona. Tishana retribuiu o aceno quase imperceptivelmente, e Huatli preparou-se para saltar.

Subitamente, a sirena e o goblin ambos arquejaram. Olharam um para o outro com olhos arregalados e confusos.

"Malcolm, você ouviu o Jace também?!" Breeches disse, olhando para seu companheiro de navio.

Jace? Huatli pensou, alarmada. O telepata?

A sirena assentiu, com medo.

Houve uma pausa grávida.

E então o chão cedeu sob eles.

***

VRASKA

Azor, o Legislador | Arte de Ryan Pancoast

"Se esta górgona não é minha prisioneira, então quem você trouxe para eu selar?" perguntou Azor do topo de seu trono altivo, feito por ele mesmo.

Antes de conhecer Jace, Vraska pensara em esfinges como pouco mais que malucos obcecados por enigmas que não se dignariam a falar com algo tão impuro quanto uma górgona. Agora, no entanto, enquanto mantinha seu medo sob controle tentando localizar a fonte do cheiro onipresente de gatos na sala (um ninho de aparência pobre de tecido e palha no canto, que não deixava dúvidas de que Azor estivera nesta sala por muito tempo), Vraska viu-se pensando que a única esfinge boa era uma esfinge congelada em pedra na entrada de uma biblioteca.

Precisamos de respostas mais do que precisamos dele morto, Jace disse a Vraska na mente dela.

Vraska eriçou-se ao sentir a esfinge tentar abrir caminho ao redor da barreira de Jace, que não obstante permanecia firmemente no lugar. Azor preguiçosamente voltou seu olhar para Jace.

"E aqui está o Pacto das Guildas Vivo." Azor empertigou-se. "Parabenizo-o por não destruir inteiramente o sistema de guildas."

"Obrigado," Jace disse seco.

"De nada."

Azor abriu as asas e assentou-se sobre as quatro patas. Sua cauda balançava preguiçosamente atrás dele. Vraska recusava-se a baixar a guarda.

"Se você não está aqui com um prisioneiro, então assumo que esteja aqui por isto," disse Azor. "A fechadura da minha prisão, minha melhor criação."

Azor olhou para o teto. Os olhos de Vraska seguiram, e a percepção se encaixou.

O Sol Imortal | Arte de Kieran Yanner

Era o que os mantinha ali. Não um encantamento separado, não o próprio plano.

O estômago de Vraska revirou. Por que meu empregador queria que eu roubasse algo que encarcera Planeswalkers?

"Se vocês estão aqui pelo Sol Imortal, receio que não tenham permissão para tê-lo." O semblante de Azor mudou, e subitamente um calafrio correu pela espinha de Vraska. A esfinge falou com magia ressoando através de cada sílaba. "A invasão não é permitida dentro das muralhas de Orazca."

O surto de hieromancia contornou a barreira de Jace e atingiu Vraska de uma só vez. Uma amarra de magia rúnica branca brilhante agarrou seu torso e a empurrou de volta em direção à porta atrás deles.

Jace gritou o nome de Vraska em surpresa e quase imediatamente Vraska sentiu a magia de Jace contrapondo o aperto da hieromancia de Azor. Vraska caiu no chão, segura atrás de uma barreira ainda mais forte. Livre do feitiço da esfinge, saltou de pé, voltando-se para Azor e rosnando.

"Sua magia da lei não pode me impedir de transformá-lo em pedra, sabia!" gritou ela, seus tentáculos chicoteando loucamente em sua fúria. "Diga-nos quem você é, ou o matarei onde está!"

"Não direi nada a você, górgona."

Os olhos de Jace imediatamente brilharam em azul frio, e ele estendeu a mão. Azor rugiu e tateou a cabeça com a pata.

"Você se referirá a ela como Capitã!" Jace afirmou.

Azor bateu as asas, e a poeira da sala levantou-se ao redor deles. Ele estufou o peito em irritação, e falou com a métrica praticada de um orador.

"Por milhares de anos transplanei através de incontáveis mundos, Capitã Vraska. Eles eram estranhos e indisciplinados, cheios de sociedades brutais assoladas por violência e desordem. Usei hieromancia para dar a esse povo o dom da estabilidade; criei sistemas de governança para curá-los de seu caos. Trabalhei altruisticamente para melhorar o Multiverso, e meus dons transformaram mundos de lugares de loucura e brutalidade em bastiões estruturados de paz! Fundei incontáveis sistemas de governança para moldar o destino comunal de incontáveis planos, e sua rejeição ao meu decreto é muito insensata. A lei deve ser seguida ."

Vraska sentiu a magia de Azor ricochetear sobre e ao redor da barreira de Jace. Ele permanecia desafiador e encarava a esfinge com severidade.

"Sabemos que você construiu a estrutura de guildas em Ravnica. Imagino que você não era de lá. Por que não ficou?" Vraska perguntou.

"A lei deve ser seguida!"

Jace fez uma careta. Uma onda ainda mais forte da magia da lei de Azor assaltou as defesas de Jace com a ferocidade de um aríete.

"Por que você não ficou?!" Vraska exigiu novamente.

Azor rugiu, desistindo de tentar atravessar a barreira de Jace. A sala ficou quieta e silenciosa.

A esfinge cruzou as patas em aborrecimento. "Porque Ravnica era um de muitos, e eu parti quando terminei." Bateu as asas, tentando outra tática. "Você é talentoso, Pacto das Guildas Vivo. Tem cumprido bem suas responsabilidades em casa?"

Uma diversão, pensou Vraska, abrindo a boca para colocar este confronto de volta nos trilhos.

"Não," Jace disse com honestidade brutal, ". . . não tenho."

A linha de pensamento de Vraska desapareceu. Jace estava seguro atrás de suas barreiras psíquicas, e no entanto ainda inteiramente vulnerável. Sua voz traía seu mal-estar consigo mesmo. "Azor, você construiu um sistema incrivelmente intrincado com magia mais complexa do que qualquer pessoa sozinha poderia prontamente entender, e no entanto fez de seu mecanismo de segurança um mortal vivo. Mesmo se eu tivesse um dom para a governança, não seria capaz de realizar a tarefa com a qual fui sobrecarregado."

Os ombros de Jace caíram. Vraska não soube o que dizer à sua admissão. Azor meramente estufou o peito.

"As guildas são um sistema perfeito."

"As guildas eram um sistema perfeito," Vraska corrigiu, pontuando cada sílaba com tanto veneno quanto pôde e direcionando-o a Azor. "Mas as guildas tornaram-se maliciosas e cruéis na sua ausência."

"E de quem é a culpa?" Azor perguntou. "Dei a Ravnica suas guildas assim como dei a incontáveis outros mundos outros sistemas perfeitos de lei e governança."

Esta esfinge pode ter vivido mil vidas a mais que ela, mas era um tolo, um patriarca cruel. Azor estava inteiramente inconsciente das consequências de sua interferência. Os punhos de Vraska estavam cerrados ao seu lado. "Não acho que você tenha autoridade para falar de falhas quando manipulou planos que não eram seus apenas para abandoná-los quando queria passar para o próximo!"

Azor sentou-se ereto, queixo erguido, garras minimamente estendidas. "Se meus governos — meus presentes — azedaram, a culpa reside nos cidadãos."

"E quanto àquele ali?" Vraska acrescentou, com o dedo apontado para o Sol Imortal alojado no teto. "Ixalan foi um de seus esforços também?"

As garras de Azor estavam plenamente estendidas.

"O que ele faz?" Vraska pressionou mais, ignorando a percepção florescente de que ela não estava bem pronta para um confronto físico com uma esfinge gigante.

Azor começou a descer de seu trono. Tanto Vraska quanto Jace tensionaram-se com sua aproximação.

"Como zelador e árbitro da lei para a totalidade do Multiverso, era meu dever colaborar para o bem maior. O Sol Imortal foi construído para aprisionar um inimigo específico. Ele amplifica as habilidades mágicas de quem quer que o toque, e impede que planeswalkers deixem um plano. A gaiola perfeita para um Planeswalker diabólico! Abri mão de minha centelha para ajudar a criar o Sol Imortal, a fechadura de minha prisão, meu maior presente para todos os seres vivos."

"Que mal você estava tentando aprisionar?" Vraska perguntou.

"Um monstro que era um perigo para todo o Multiverso. Nosso plano, naturalmente, era perfeito. Mas meu amigo falhou."

"Nosso plano? Então você o fez com outra pessoa?"

Azor rosnou. "Ele era meu amigo. Ele deveria ter me ajudado a recuperar minha centelha após nosso plano funcionar, o que não aconteceu — "

"Então seu amigo ajudou a fazer o Sol Imortal e depois abandonou você?" Vraska esclareceu, desesperada por mais informações da esfinge ligeiramente maluca e claramente amargurada.

"Ele deveria atrair nosso inimigo para um plano distante e eu deveria usar o Sol Imortal para aprimorar minha hieromancia e convocar aquele inimigo aqui, para Ixalan. Mas nunca recebi o sinal para ativar o Sol Imortal. Não conheço o destino de meu associado," Azor disse com um movimento da cauda. "Concebemos o plano há mais de mil anos, e vim para Ixalan pouco mais de cem anos depois disso. Ele falhou. Não sei o que aconteceu, mas minha execução foi perfeita — "

Vraska resistiu ao impulso de se atirar pela janela mais próxima. Ele está enclausurado neste plano há mil anos.

Azor continuou divagando. "Não queria ter nada a ver com o Sol Imortal. Era um lembrete do fracasso do meu amigo, então decidi dar o dom da governança a este plano. Ixalan deveria ser governada por quem possuísse o Sol Imortal, e inicialmente o presenteei a um monastério no leste, em Torrezon. Mas eles não eram dignos, então o peguei de volta e o presenteei a outros. O Império do Sol não foi digno. Os Arautos do Rio, como evidenciado pelo despertar de Orazca, não foram dignos. Apenas eu sou digno, e por isso devo trabalhar mais para aperfeiçoar este sistema."

Vraska gesticulou amplamente. "Culpando os outros pelos problemas que você causou?!"

"Estive planejando! Se não sou capaz de continuar a aperfeiçoar o Multiverso, então ainda posso fazê-lo aqui — posso consertar Ixalan!"

Vraska olhou-o furiosa. "Como você pode ser tão cego para o dano que causou?!"

O desabafo perturbou a esfinge. Azor abaixou as orelhas e franziu a testa.

"Não é o sistema que é defeituoso, são as pessoas," ele respondeu friamente.

"Os últimos séculos neste plano foram um caos por causa da sua intervenção," Vraska cuspiu.

"Eu consertei este plano — "

"Este plano nunca esteve quebrado!" Vraska gritou.

Azor rugiu, abriu as asas e lançou-se em direção a ela.

Jace lançou um manto de invisibilidade ao redor de si mesmo e de Vraska. Conforme ambos giraram para desviar da investida da esfinge, Vraska desembainhou sua espada e cortou uma linha longa e fina na perna traseira de Azor.

A esfinge rugiu de dor e pousou, varrendo loucamente ao seu redor com as asas. "Revele-se!" ele comandou, e Vraska sentiu Jace retirar a camuflagem deles.

Os olhos de Jace brilharam com poder, e Vraska pôde senti-lo alcançar além de sua própria barreira psíquica e manipular a mente de Azor, enviando a sensação de uma enxaqueca perfurante através da cabeça da esfinge.

Azor arquejou.

Jace recuperou o fôlego e olhou para Vraska. Você está ferida?

Não, respondeu ela, mas eu adoraria petrificá-lo antes que ele tente isso de novo.

Ele não merece a morte, Jace afirmou.

Vraska olhou-o gravemente. Ele merece castigo.

Ela deu um passo à frente ao lado de Jace e encarou a esfinge. "Sua vida foi gasta consertando o que você via como problemas em outros planos, e você se meteu em negócios que não eram seus."

"Sou o Árbitro da Lei — " Azor interrompeu.

Jace cerrou o punho e Azor gemeu de dor.

"Deixe-a falar!" Jace rosnou.

A esfinge lutou para erguer a cabeça, mas estava desorientada demais pelo feitiço de Jace.

"O Sol Imortal gerou centenas de anos de conflito neste plano," Vraska rosnou, ansiosa por continuar. "Ele levou a Legião do Crepúsculo a conquistar um continente inteiro. Ele fez com que o Império do Sol e os Arautos do Rio travassem guerra impiedosamente uns contra os outros. O seu artefato desequilibrou um plano inteiro, e no entanto você se recusa a ser responsabilizado."

Vraska ajoelhou-se ao lado de Azor. "As guerras deste plano estão na sua conta, e a prisão onde sofri desnecessariamente em Ravnica, onde meu povo foi subjugado, foi em última instância obra sua."

Ela inclinou-se para mais perto e sibilou, os olhos brilhando em ouro, "Você merece castigo. Um líder não pode abandonar suas responsabilidades."

". . . Capitã," Jace interveio por trás. Sua voz era gentil e calma.

Vraska olhou para ele.

O rosto de Jace era ilegível, olhos distantes, sua boca uma linha firme.

"Acho que preciso fazer isto," disse ele calmamente.

Vraska piscou, incerta do que ele queria dizer. "Você quer castigá-lo?"

Ele olhou de volta. Vraska assistiu a um espectro de incerteza, depois resolução, passar pelo rosto dele. Ele assentiu. "É minha responsabilidade agir em nome de Ravnica."

Vraska entendeu.

"Muito bem," disse ela, afastando-se para observar.

Jace aproximou-se, e os papéis mudaram, como se atores em um palco tivessem trocado seus roteiros. Onde outrora estivera um conquistador havia agora um condenado. Um assistente, agora um juiz. O Pacto das Guildas Vivo encarou o parun dos Azorius e falou com a sabedoria e seriedade do Jace que Vraska conhecia bem.

"O Pacto das Guildas Vivo mantém o equilíbrio entre as guildas de Ravnica. Você, Azor, parun dos Azorius, é uma parte inerente de Ravnica, e causou desequilíbrio não apenas no meu lar, mas em incontáveis outros planos."

Vraska ficou parada e ouviu. Azor tremia, encolhendo-se como um gatinho. Ele poderia ter lutado, poderia ter atacado Jace na hora, mas havia uma magia mais profunda em ação, um nível poderoso de hieromancia que Vraska não conseguia ver ou entender que mantinha a esfinge sob controle. A evocação do status parara Azor no caminho, e ele ouvia com olhos redondos e arregalados sua sentença. Jace, enquanto isso, não tentava agigantar-se sobre Azor. Não tentava dominar fisicamente ou intimidar. Sua postura era calma e comedida, seu contato visual constante. Aquilo era um ato de humildade, de aceitar algo que nunca pedira.

Jace continuou, "Não apenas você decidiu que era seu lugar governar o que não era seu, você também nunca parou para considerar as consequências de suas ações. Ixalan está em perigo, Ravnica foi construída para ser instável após sua partida, e incontáveis outros mundos provavelmente sofreram com sua intervenção deliberada. Quaisquer que fossem suas intenções, você não buscou entender as ramificações totais de suas escolhas."

Azor gaguejou através de sua dor, "Nossa intenção era aprisionar Nicol Bolas — "

O queixo de Vraska caiu.

Ela olhou para Jace, que parecia estar congelado. Seus olhos estavam arregalados de percepção, dedos ainda no ar à sua frente.

Vraska reconheceu a expressão de Jace como a mesma da margem do rio. Conseguia ver o branco de seus olhos e o tremor de seu lábio.

Uma imagem breve lampejou em sua mente.

Onisciência | Arte de Josh Hass

Ela estremeceu. Ele acabou de lembrar de Nicol Bolas. Ele o conhece afinal.

"Azor . . . posso ver como você sabe quem ele é?" Jace perguntou. De qualquer outra pessoa, a pergunta seria estranha, ou mal colocada. Mas aquela era a frase de um telepata. O coração de Vraska batia furiosamente no peito.

O lábio da esfinge tremeu ao considerar o pedido de Jace. "Sim."

Jace fechou os olhos e Vraska assistiu enquanto ele gentilmente, delicadamente vertia seus sentidos na mente de Azor. Ela percebeu que ele lembrava dos ensinamentos de Alhammarret, e perguntou-se como era abrir a mente de uma esfinge.

Jace olhou para Vraska. Seus olhos estavam iluminados com poder, mas suas sobrancelhas franziram-se em confusão e terror. Sabia que o que quer que ele estivesse vendo era má notícia.

"Obrigado, Azor," disse ele. Levantou-se, levando um momento para recompor-se e pensar em qualquer evidência que acabara de ver. Após alguns segundos, soltou um suspiro trêmulo.

Jace continuou, com um vinco na testa e uma careta em sua expressão. "Suas intenções eram nobres, mas o efeito do Sol Imortal em Ixalan foi catastrófico. Você e o Sol Imortal são um perigo para a estabilidade deste plano."

Uma névoa estranha de magia azul deslocou-se pela cabeça da esfinge, desaparecendo tão rápido quanto aparecera.

Jace recuou, a magia em seus olhos desaparecida, e falou com a autoridade do Pacto das Guildas. Vraska sentiu um calafrio correr pelo seu pescoço conforme ele falava, e percebeu pela primeira vez quanto poder aquela posição carregava.

"Você será o mestre e zelador da Ilha Inútil. Você não será capaz de partir, e nunca mais se meterá nas vidas de seres sencientes. Deixe o Sol Imortal aqui e parta com sua vida. Como Pacto das Guildas Vivo, este é o meu decreto."

A evocação da magia ravnicana ao redor do parun dos Azorius elevou as palavras de Jace, e Vraska sentiu um estranho fluxo estrangeiro de magia da lei ressoando em sua voz.

Azor piscou. Vraska apagou o feitiço de petrificação que mantivera carregado durante todo o encontro.

Azor abriu as asas, que abrangiam a largura da sala do trono. Bateu-as, subiu no ar e voou pela porta por onde Vraska e Jace haviam entrado sem mais uma palavra.

Sua silhueta desapareceu acima da copa das árvores na distância, e ele se fora.

Vraska olhou para o Sol Imortal, incerta sobre como se sentia em relação a ele agora.

"Por que Nicol Bolas quer um artefato que aprisiona Planeswalkers?" perguntou ela em pavor sussurrado.

Os lábios de Jace eram uma linha severa, e ele olhou para ela com pavor.

"Vraska," disse ele, com a voz vacilante, "você precisa saber para quem está trabalhando."

31 de Janeiro de 2018 | Por Alison Luhrs & Gregg Luben

Sabotagem

Cerca de 1.300 Anos Atrás

Uma brisa suave passou por uma estepe aberta, manadas de feras herbívoras passaram pacificamente pelos muros de uma grande cidade de vidro e pedra e, em uma ondulação de ar, um dragão rasgou o céu vindo de um mundo distante.

Seu nome era Ugin, e seu propósito era, e sempre fora, singular.

Multidões de pessoas reuniram-se conforme ele se aproximava do alto e aclamaram à visão do dragão. Eles o guiaram em direção ao centro da cidade. Sorriram ao ver Ugin, pois o Árbitro da Lei lhes dissera que o Dragão Espírito era digno de confiança. Ugin foi conduzido pela cidade com grande fanfarra e, eventualmente, encontrou seu associado no topo das escadas que levavam ao que os cidadãos lhe disseram ser o Palácio da Justiça.

A esfinge era um hieromante que vivera por 10.000 anos. Suas causas eram nobres mesmo se suas razões não fossem.

"Ugin, meu amigo," disse Azor com um desdobrar de asas e uma inclinação de cabeça, "bem-vindo ao meu mais novo lar."

A esfinge agitou suas rêmiges e um pequeno pulso de magia da lei fez a multidão ao redor deles virar-se e partir.

"O que o traz a este plano?" perguntou Azor.

O Dragão Espírito falou a Azor. "Quando nos encontramos pela última vez, discutimos nosso inimigo comum."

"O que tem ele?" perguntou Azor. Ele olhou ao redor nervosamente. "Este mundo está em perigo?"

O destruidor chegara subitamente a um dos mundos protegidos de Azor, varrera o trabalho de Azor e construíra um novo império para seus próprios propósitos crípticos.

Ugin encontrara a esfinge menos de uma década depois e revelara o nome do flagelo, seus métodos e sua história vilanesca.

"Cada mundo está em perigo, enquanto nosso inimigo estiver livre e inteiro. É por isso que estou aqui. Elaborei um plano para livrar o Multiverso de sua influência, mas não consigo fazê-lo sem você."

A esfinge respondeu, "Estabeleci a lei em incontáveis mundos. Criei estrutura onde outrora não havia nenhuma. Ficaria imensamente honrado em compartilhar a imensidão de meus dons com você, querido amigo."

Ugin ficou satisfeito. "Juntos livraremos o Multiverso de Nicol Bolas."

O plano que traçaram exigia sucesso em duas frentes: precisariam de um meio e oportunidade para atrair seu inimigo para sua prisão, e de uma fechadura para contê-lo e neutralizá-lo ali. Enquanto conversavam, Azor excitadamente delineou a hieromancia necessária para criar um objeto que aprimoraria sua própria magia da lei — dando-lhe a habilidade de convocar o dragão dourado de qualquer local do Multiverso. Exigiria o sacrifício de sua própria centelha mas, com a assistência de Ugin, ela poderia ser recuperada após Nicol Bolas ser destruído. "Existe um plano ao qual estive querendo trazer ordem — um mundo chamado Ixalan. Construirei o Sol Imortal lá, no continente de Torrezon."

Azor não seria mais um Planeswalker, mas o Sol Imortal amplificaria sua hieromancia com todo o poder de sua centelha decepada, permitindo-lhe operar magias que uma esfinge mortal nunca poderia esperar criar. Sem ajuda, seu inimigo seria convocado para a gaiola não importa em qual plano estivesse. O dispositivo também serviria como uma fechadura para sua prisão, garantindo que seu inimigo transplanador não tivesse meios de fuga. Ugin assegurou a Azor que, graças a séculos de planejamento, ele mantinha em segredo um meio de remover Nicol Bolas da existência para sempre. Precisavam apenas capturar o dragão dourado, e sua tarefa estaria completa.

"Você terá que atraí-lo para um local específico," disse Azor. "Precisarei saber onde mirar para convocá-lo para a prisão."

Ugin, naturalmente, pensara em tudo isso, pois era tão astuto quanto conivente. "Eu o atrairei para Tarkir."

***

"Diga-me mais deste legislador," arrastou Nicol Bolas as palavras enquanto casualmente arrancava o braço direito do funcionário menor que segurava em sua garra. Um elfo, o líder de seja-lá-o-que-este-lugar-era e o supervisor de quem-se-importa.

Conforme Nicol Bolas usava o apêndice decepado para esbofetear o homem repetidamente, refletiu que não deveria se permitir ser tão facilmente tentado à selvageria pela tolice de mortais, particularmente não quando mesmo o menor uso de sua habilidade telepática bastaria para obter a informação de que precisava. Não obstante, os tapas tiveram o efeito desejado, dissipando o choque do homem tempo suficiente para produzir uma resposta. Havia um certo sentimento de alegria que Bolas alcançava apenas punindo a estupidez.

Enquanto todos os colegas burocratas deste elfo — e todos os outros na cidade — estiveram sensatamente correndo por suas vidas, este único tolo patético permanecera na praça. Começara a lançar insultos. A um dragão ancião. Jurara que o legislador logo retornaria e, mais uma vez, traria um fim ao mal. Que invectiva cansativa, pensou Bolas enquanto o elfo soluçava, contando tudo o que sabia e implorando por sua vida.

A esfinge. Novamente, a esfinge. Este era o terceiro plano que Bolas encontrava onde o povo reverenciava uma esfinge que viera de uma terra distante. Sabia agora que não era coincidência. As histórias eram parecidas demais — sempre a esfinge vinha de um lugar distante e desconhecido, e sempre impunha um sistema de justiça à população antes de desaparecer novamente, deixando códigos legais laboriosos e, no caso deste plano, estatuária pretensiosa em seu rastro. Um planeswalker, Bolas pensou, um hieromante muito provavelmente, e, ao que parece, um inimigo.

A estátua, grande por si só, fora instalada (de forma um tanto ostensiva demais na visão de Bolas) no topo do maior edifício da cidade — um salão de mármore de aparência oficial que se agigantava sobre a praça. O dragão cuidadosamente baixou o burocrata sangrento sobre a cabeça da estátua antes de soltá-lo, esperando um momento para ter certeza de que o elfo encontrara apoio firme. "Não tema, mortal," escarneceu Bolas ao preparar-se para partir. "Por tudo o que você me contou, tenho certeza de que seu legislador retornará para ajudá-lo bem antes de você morrer sangrando."

"Azor," o fraco dissera. A esfinge chamava-se Azor. Resolvendo aprender o máximo que pudesse sobre este Azor, Bolas sorriu desdenhosamente por um momento para o homem equilibrando-se na estátua. Então desdobrou suas asas gigantes e ganhou o céu.

Ao longo de muitos anos, e através de muitos planos, Nicol Bolas buscou pistas da agenda da esfinge. Finalmente, em um plano assolado pela guerra, Bolas deparou-se com uma maga da lei encarando desoladamente uma estátua quebrada — mais um lembrete berrante do lendário legislador.

O Árbitro da Lei virou nosso mundo contra si mesmo, a maga da lei pensou, e uma enxurrada de imagens fluiu de sua mente conforme Nicol Bolas sintonizou-se com ela e começou a desvendar os fios de sua existência. Pensar que eu o adorei como um salvador quando suas soluções apenas quebraram um mundo que não precisava de conserto. Pensar que no dia em que passei escondida no Palácio da Justiça, ouvindo ele e o Dragão Espírito tramarem o fim do Mal Verdadeiro, pensei estar o mais perto do divino que qualquer mortal estaria . . .

Nicol Bolas saboreou o gosto do desespero final da maga da lei conforme ela morria. Um mal verdadeiro, pensou ele, que lisonjeiro . . .

***

Azor estava nas margens de Torrezon em um turbilhão de sua própria magia.

A esfinge realizou um feito de hieromancia que nenhum ser jamais tentara e nenhum jamais seria capaz de igualar, decepando sua centelha para criar o artefato que chamou de Sol Imortal. A esfinge permaneceu sobre sua obra-prima, exausta porém sempre orgulhosa.

Falou através de mundos, pois aquele era um tempo em que Planeswalkers possuíam a força de deuses. "Ugin, minha força aumentou dez vezes com a ajuda de minha criação. Estou pronto para assegurar nosso prisioneiro."

Ugin ouviu, e respondeu da mesma forma. Sua voz viajou através das Eternidades Cegas e ressoou claramente na mente de Azor. "O trabalho de nossa vida estará completo em breve, meu amigo," disse Ugin, cobrindo "amigo" com a isca de parentesco à qual Azor nunca fora capaz de resistir. "Tenho apenas que preparar a isca para a armadilha e esperar o destruidor chegar."

Ugin voava acima das montanhas escarpadas de Tarkir, tão absorto em fazer preparações que não conseguiu suprimir seu choque total quando seu nêmesis apareceu diante dele.

As asas de Bolas abriram-se amplas no caminho de Ugin, como um manto ondulante, e suas escamas brilharam à luz da tempestade ao seu redor.

"Seu gato idiota gosta demais de estátuas de si mesmo," refletiu Nicol Bolas. "I poderia nem estar ouvindo suas charmosas conversas à longa distância se ele não tivesse deixado tantas pistazinhas aqui e ali."

Ugin eriçou-se. "O Sol Imortal selará você em sua prisão, Planeswalker."

Nicol Bolas riu, e lançou-se contra seu inimigo enquanto sua risada se ampliava em um rugido ensurdecedor.

Lutaram e enfureceram-se pelo ar, titãs em uma tempestade.

Nexo do Destino | Arte de Michael Komarck

Mas Bolas ergueu uma garra, e centenas de pares de olhos de dragão olharam para baixo sobre Ugin em uníssono. Curvaram seus grandes corpos e mergulharam para atacar. O Dragão Espírito tentou escapar, mas foi pego em uma tempestade de fogo e garras.

Ele atingiu o chão. Teria morrido, talvez, mas um homem fora do tempo interveio. Aquele homem preservou o corpo de Ugin em um casulo de pedra e desapareceu.

E Nicol Bolas transplanou para longe, para nunca mais retornar, pois vencera.

Azor esperou por um ano.

Manteve vigília, parado sobre o Sol Imortal com sua atenção focada nos céus, esperando por um sinal de seu amigo.

Mas sinal algum jamais veio e, no tempo que Azor levou para perceber que algo devia ter acontecido com Ugin, não havia dragão para convocar. Nenhum inimigo para selar em sua armadilha. Nenhum grande sacrifício a ser feito na luta contra o mal.

Azor foi deixado sem uma centelha, e sua prisão sem um prisioneiro.

Esperou por décadas antes de finalmente perceber que nada lhe restava a fazer ali exceto o que fazia melhor: construir mais um sistema de lei ali, em Torrezon.

Presenteou com o Sol Imortal um monastério que mais tarde daria origem à Legião do Crepúsculo, mas eles eram ineptos, então Azor pegou o Sol Imortal de volta antes que pudesse ser usado pelos pretensos conquistadores de Torrezon.

Presenteou-o ao Império do Sol e, por um tempo, seus reinos prosperaram, mas seus líderes tornaram-se paranoicos, lançando ataques preventivos contra seus vizinhos. Então Azor pegou sua obra-prima de volta novamente, desta vez selando-se dentro das muralhas de Orazca e encarregando os Arautos do Rio — o único povo sábio em Ixalan — de garantir que ninguém pudesse encontrá-lo ou despertar o poder lá dentro.

Por anos além da conta, Azor remoeu em seu trono imponente em uma cidade vazia, amaldiçoando o nome do amigo que o abandonara.

E durante todo o tempo, sem que Azor soubesse, Ugin dormia.

***

VRASKA

Santuário do Sol | Arte de Yeong-Hao Han

Jace contou a Vraska tudo o que sabia sobre Nicol Bolas.

A tentativa fracassada de tomar a Ponte Planar, o exército de Eternos em Amonkhet.

Vraska, em retorno, contou-lhe tudo o que sabia sobre Nicol Bolas. O Plano de Meditação e a chave-feitiço que lhe concedeu acesso, quão assustada ela estava de que Bolas a mataria se ela falhasse com ele. Quanto mais Vraska contava a Jace, mais ambos começavam a perceber a imensidão do plano de Nicol Bolas. Vraska sentia-se culpada e aterrorizada em igual medida, como se o peso de todos os planos estivesse sobre ela.

Segurou a cabeça nas mãos. "Devo contatar um dos associados de Bolas, e eles recuperarão o Sol Imortal — "

" — usando a Ponte Planar," Jace completou com um meneio de cabeça sombrio. "É o Tezzeret. Ele é quem você deve chamar."

Vraska balançou a cabeça brevemente. Não sabia quem era. Jace fez uma careta. "O homem com o . . . braço. De quando eu era mais jovem."

Vraska praguejou com repulsa.

Jace esfregou o rosto com as mãos. "Bolas enviou Tezzeret para Kaladesh para recuperar um portal que pode transportar objetos. Enviou você para recuperar algo que tranca planeswalkers em um plano — "

"E ele foi para Amonkhet explodir sua fábrica de cadáveres. O que ele planeja fazer com zumbis que estão presos em um plano morto?"

O rosto de Jace empalideceu. Vraska conseguia ver o branco de seus olhos. Ele os fechou e gemeu. "Eles não são mais apenas cadáveres. Foram tratados com lazotep; é esse mineral que se afixou à matéria orgânica dos Eternos — "

" — Para torná-los objetos que pudessem sobreviver à viagem interplanar." Vraska balançou a cabeça. "He fez um exército que poderia transportar através do Multiverso. E o Sol Imortal garantirá que ninguém possa partir uma vez que tenham chegado. Jace, há qualquer coisa que possa nos dizer qual é o seu objetivo final?"

Jace pausou. "Preciso verificar. Um momento."

Ele fechou os olhos, e Vraska esperou.

A sala ficara abafada, e pequenas partículas salpicavam os feixes de luz solar que brilhavam através da abertura para o exterior. Conseguia sentir seu coração batendo um ritmo preocupado no peito mas, por dois minutos inteiros, Jace permaneceu inteiramente parado.

Finalmente ele abriu os olhos, e olhou para ela com a expressão mais triste que ela já vira no rosto de alguém.

"Mostre-me," Vraska comandou.

E Jace o fez.

O ar ondulou com os agora familiares sinais de ilusão, e Vraska assistiu através dos olhos de Jace.

Hora da Devastação | Arte de Simon Dominic

Escamas douradas. Arenito. Calor. Areia áspera em seus lábios e em seus olhos e em sua garganta. Amigos quebrados, condenados. He tentava invadir a mente de Nicol Bolas. Sentir qual era o plano do dragão, impedi-lo de causar dano, e por um breve momento, ele conseguira, vira o objetivo, e a resposta parou seu coração no peito —

Ravnica estava escrita em larga escala sobre a ambição na mente de Nicol Bolas.

Não estava propositalmente disposta, como armadilhas da mente frequentemente estão, mas tecida nas intenções do dragão, carimbada ampla e brilhante por seu subconsciente.

Nicol Bolas notou a presença de Jace e retaliou chocando sua força psíquica na mente do mago. Mas quando o fez, e quando o dragão vasculhou seu interior, Vraska sentiu algum tipo de armadilha sendo disparada e, embora Bolas tenha conseguido embaralhar as memórias de Jace, uma parte da mente de Jace o impeliu de Amonkhet para Ixalan.

Ravnica era o objetivo de Nicol Bolas.

Tudo levava para lá.

Vraska abriu os olhos, e a projeção de Jace cessou.

Percebeu que suas mãos estavam tremendo.

"He quer soltar um exército. No nosso lar. Com a minha ajuda."

Ambos ficaram muito quietos. Era demais. Grande demais, avassalador demais. O objeto pelo qual Vraska viajara por meses para encontrar estava pendurado acima deles.

Vraska levantou-se bruscamente. Caminhou de um lado para o outro, praguejando repetidamente, pegando uma pedra e atirando-a no Sol Imortal acima.

"Se eu não entregar o Sol, estou presa aqui, e se eu entregar, Nicol Bolas destruirá Ravnica. Ravnica é o nosso lar!"

Jace estava em silêncio.

"E você!" disse Vraska. "Ele olhará na minha mente e verá que te conheci! Que te conheço, que tudo isso aconteceu. Ele matará a nós dois!"

Sentou-se e tentou respirar para afastar seu pânico. Não importava o que acontecesse, o restante dos Golgari sofreria. Não importava o que acontecesse, ela morreria.

"Tudo isso tem sido uma farsa," Jace disse fracamente. "Kaladesh, Amonkhet, aqui. As Sentinelas não estavam protegendo nada. Não realmente. Decepcionei a todos."

A cabeça de Vraska estava entre as mãos. Estava divagando, tentando elaborar o plano verbalmente. "Nicol Bolas pretende prender Planeswalkers e, o quê, eliminar o restante de Ravnica? Abafar para poder prender os inimigos com que se preocupa e destruir algum outro lugar? Ambos parecem inúteis — se ele quisesse matar Planeswalkers, ele simplesmente o faria. Não entendo sua intenção."

A sobrevivência estivera no cerne de cada escolha que Vraska já fizera. Mas agora, não conseguia ver uma saída. Ou permaneceria presa em Ixalan enquanto Ravnica queimava, ou retornaria e seria morta imediatamente pelo dragão por trabalhar ao lado de seu inimigo. Não importava o que escolhesse, enquanto Nicol Bolas fosse capaz de espiar sua mente, seu lar seria destruído.

Mas e se ele olhasse e não visse nada?

Uma ideia terrível surgiu em sua mente. Uma ideia terrível e brilhante.

Vraska fechou os olhos e soltou um suspiro longo e trêmulo. Era a ideia mais assustadora que já tivera na vida. Mas se Nicol Bolas olhasse e não visse nada, continuasse a confiar nela, permitisse a ela o poder que lhe prometera em troca de seu serviço . . . então ela poderia feri-lo ainda mais. Eles poderiam feri-lo ainda mais.

"Jace."

Jace olhou para ela, perturbado.

"Tive uma ideia, mas você não vai gostar."

Jace balançou a cabeça. O desamparo estava gravado nas linhas de sua careta. "Não sei o que eu poderia fazer que ajudaria."

Vraska reuniu tanta coragem quanto pôde para fazer o pedido passar por seus lábios. O que estava prestes a dizer era assustador, alarmantemente drástico e inteiramente necessário para a sobrevivência compartilhada deles.

"Preciso que você leve temporariamente minhas memórias de você."

Jace recuou em desgosto. "Não farei isso."

"Jace, é temporário e é a única maneira de evitar que sejamos mortos." Vraska engoliu em seco. Sabia quão horrível aquilo soava, mas quanto mais a ideia marinava em sua mente, mais sabia ser a escolha certa. A única escolha.

Jace balançou a cabeça em descrença. "Não vou te machucar assim — "

"Você não estaria me machucando, estaria nos protegendo," disse ela enfaticamente. "Você leva minhas memórias de você da minha mente e as guarda. Mantém-nas seguras, mantém-nas longe da visão do dragão, para que quando ele me vir, pense que a missão correu sem problemas. E então, em Ravnica, no momento certo, você me devolve as memórias."

Jace imobilizou-se. Vraska quase conseguia vê-lo pensando no plano. Falou lenta e deliberadamente, em um tom encharcado de medo com uma pitada de curiosidade perigosa. "Você quer trair Nicol Bolas."

Vraska assentiu. Viu-se franzindo o cenho, seus tentáculos agitando-se com raiva e determinação. "Se aquele bastardo acha que eu ficaria parada e permitiria que ele conquistasse meu plano com a minha ajuda, ele está muito enganado. E eu o trairia mil vezes para impedi-lo de fazer com Ravnica o que fez com Amonkhet."

A repulsa no rosto de Jace fora substituída por intriga. Olhou para Vraska com curiosidade conspiratória. "De que tipo de sabotagem estamos falando?"

Uma pitada de talento criminoso permanecera com ele nos anos desde a manalâmina, afinal. Vraska deu a Jace um olhar de aprovação e começou a expor os começos de seu plano.

"He me prometeu o título de líder de guilda. Magia da lei foi construída na tessitura de Ravnica, mesmo antes de Azor chegar. A metafísica do plano é construída em torno da hierarquia, e líderes de guilda têm acesso a esse poder, especialmente quando trabalham juntos. Aceitarei a posição e continuarei trabalhando como capanga dele enquanto você faz sua coisa de Pacto das Guildas e trabalha na elaboração de um plano. O dragão não suspeitará de nada porque não estarei do seu lado até que você me lembre de que estou. Quando estiver pronto, e quando pudermos ferir Nicol Bolas mais profundamente, devolva minhas memórias e colocaremos qualquer plano que você fizer em movimento. Mesmo que ele perceba o que você está fazendo, não achará que funcionará, porque pensará que sou leal a ele."

O plano parecia insano de dizer em voz alta, mas Vraska sabia que funcionaria. Jace era provavelmente o segundo melhor telepata no Multiverso antes de lembrar o que seu mentor lhe ensunara. Mas agora? Ele estava inteiro. Não mais fraturado. Se ele conseguira quebrar uma esfinge quando menino, o que conseguiria fazer como adulto?

Vraska percebia que Jace começava a entender. Olhou para ela relutantemente. "Você confiaria em mim com suas memórias?"

"Confio em você absolutamente," respondeu ela com determinação de ferro.

Como não confiaria? Ele era como ela. Vraska percebeu pela primeira vez que era assim que parecia uma parceria, e sua convicção aprofundou-se. Quão estranho era ter alguém em quem confiar e em quem ser confiada em retorno.

O olhar no rosto de Jace dizia a ela que ele nunca ouvira aquilo de ninguém. Deu a ela um olhar de admiração e tristeza, fechou os olhos brevemente e abriu-os mais uma vez.

"Existe uma técnica que Alhammarret me ensinou," Jace disse com apreensão. Estava inclinado para frente onde sentava, com os cotovelos nos joelhos. Sua linguagem corporal mudara de terror guardado para foco na resolução de problemas. "Manobra de Oubevir. É uma maneira de suavizar as evidências de adulteração mental. Consigo fazer a engenharia reversa do feitiço que Ugin colocou em mim para disfarçar ainda mais a lacuna deixada para trás. Bolas não deve ser capaz de dizer que algo foi removido."

"Tem certeza?"

"Bolas não verá a ausência de algo que não saberia procurar. Ele é orgulhoso demais, e não sabe que estou aqui."

Vraska começava a sentir-se esperançosa. "Quem em Ravnica poderia ajudar a bolar um plano de sabotagem?"

Jace pensou por um momento e assentiu. "Niv-Mizzet. He poderia desafiar Nicol Bolas tanto física quanto mentalmente, além de que ficará furioso ao saber que existe um dragão mais esperto que ele."

"Então sabemos o que temos que fazer."

Vraska estendeu a mão. Jace a pegou na sua e apertou firme.

"Tem certeza de que não temos tempo para planejar isto melhor?" perguntou ele.

Vraska balançou a cabeça. "Ravnica está em perigo e você está fora há meses."

Jace soltou um suspiro longo e lento. "Então vamos fazer isto antes que eu desista."

Olhou para Vraska com calma determinação. "Você tem minha palavra como o Pacto das Guildas Vivo de que suas memórias serão mantidas seguras e devolvidas intactas. Juro encontrar um plano que possamos usar contra Nicol Bolas, e juro cumprir minha responsabilidade de proteger Ravnica, meu lar."

Vraska falou com confiança. "Você tem minha palavra como capitã do Beligerante de que farei o que for preciso para sabotar Nicol Bolas ao retorno de minhas memórias. Juro comprometer meu eu consciente com a destruição dele."

Vraska apertou a mão de Jace, e eles soltaram. O pacto fora feito.

Um sorriso repuxou um canto da boca de Jace. "Vamos sabotar aquele bastardo."

Vraska sorriu largo.

Sentia-se excitada, aterrorizada, mas confortada ao mesmo tempo. Jace manteria uma parte dela segura, não importasse o quê. Eles iam salvar Ravnica.

"Para onde você irá depois que ele se for?" perguntou ela, apontando para o Sol Imortal.

Jace levantou-se. "Preciso encontrar meus amigos em Dominária."

"Para recrutá-los?"

"Principalmente para me desculpar por estar absurdamente atrasado."

"Ao menos você tem um bom motivo." Vraska deu de ombros.

"Não ficarei em Dominária depois de encontrá-los, no entanto." Ficou estranhamente quieto. Um pequeno vinco abriu-se entre suas sobrancelhas. "O Pacto das Guildas pertence a Ravnica. Não quero ser como Azor."

Vraska entendeu por que ele teria aquele medo, detendo o título que detinha. Ela assentiu, e sua mente vagou conforme Jace silenciou-se novamente.

Após um momento ela riu um pouco. "Acabei de perceber que ainda vou reconhecê-lo quando o vir da próxima vez . . . mas com certeza tentarei te matar."

"Eu sei," disse ele docemente.

Vraska não pôde evitar sorrir com aquilo. Que segredo estranho ele teria que guardar.

Perguntou-se como seria lembrar de Ixalan depois que terminasse. Lembraria do Beligerante? Lembraria dos amigos? "Consegue sentir onde está minha tripulação?" perguntou em voz alta.

Jace parou por um momento, escutando algo que ela não conseguia ouvir. Assentiu. "Sim. Estão na sala acima. Posso enviar uma mensagem a Malcolm ou Breeches, se você quiser."

Vraska suspirou com culpa. "Diga a ambos que fomos capturados. Diga-lhes para retornarem ao navio, Amelia está no comando, e que esta tripulação é a melhor coisa que já me aconteceu. É a verdade."

Os olhos de Jace brilharam brevemente com o brilho azul de sua magia. "Está feito," disse ele tristemente. "Sentirei falta deles também."

"Nós os veremos de novo," Vraska disse com determinação. "Não quero esquecê-los."

"Você não esquecerá," Jace a assegurou. "Vou garantir isso."

Vraska girou os ombros. Aquecer. Hora do final. "Como deve funcionar? Devo chamar Tezzeret primeiro?"

"Precisarei identificar cada memória que você tem de mim primeiro," respondeu Jace. "Você chamará Tezzeret depois que eu terminar. Assumo que ele tenha consertado a Ponte Planar, então ele puxará o Sol Imortal através dela. Então poderemos transplanar para longe."

"Espere." Vraska franziu a testa com preocupação. "Como saberei que minhas memórias são reais quando as receber de volta?"

Jace moveu-se para ficar à frente dela. "Chamarei você pelo seu título quando a vir da próxima vez, antes de devolver suas memórias."

"Você me chamará de Líder de Guilda?"

Seu olhar suavizou-se. "Chamarei você de Capitã."

A felicidade repuxou as linhas de seus olhos. "Isso funcionará."

Estendeu-se em direção a ela, mãos erguidas. "Posso?" perguntou ele. Vraska assentiu, e ele colocou os dedos em cada lado da cabeça dela.

Vraska sorriu. "Depois que tudo isso acabar . . . posso te mostrar o Mercado da Rua do Estanho lá em Ravnica?"

Jace retribuiu com um sorrisinho triste. "Eu lembro onde fica o Mercado da Rua do Estanho."

"Sim, mas . . . quero te dar um tour. Tomar um café. Conheço uma livraria muito boa."

"Você gosta de livros?" Jace perguntou, um olhar esperançoso e feliz nos olhos.

Vraska assentiu. "Pegarei uma história, você pode pegar alguns esquemas ou seja lá o que você gosta de ler," brincou ela.

Ele riu. "Gosto de memórias."

"Sério? Você gosta de memórias?"

"Gosto de pessoas interessantes," disse ele com um sorriso suave e tímido.

Vraska sorriu. "É um encontro."

Ela assentiu e fechou os olhos. "Fale com Niv-Mizzet. Encontre um plano que precise que os líderes de guilda funcionem, e deixe-me por último. Não deixe o outro dragão notar. E então . . . "

"Sabotagem," Jace completou excitadamente.

Abriu uma conexão entre as mentes deles. Vraska subitamente sentiu-se como se estivesse em um palco atrás de uma cortina que agora estava sendo gentilmente erguida. A presença dele era polida, mas ela o sentia andando na ponta dos pés por sua mente.

Se eu chegar perto de algo que você não queira que eu veja, apenas diga e eu recuarei.

Vraska assentiu.

Também deixarei algumas memórias para Nicol Bolas encontrar para que ele não veja nenhuma lacuna. Está bem?

Sim, respondeu Vraska. Sentia-se culpada por ter visto tanto do próprio passado de Jace.

Isso não foi culpa sua, Jace disse, puxando a memória da margem do rio para ambos verem. Sentiu enquanto ele assistia através dos olhos dela, viu quão ruins as coisas estavam na lama, perdido na inundação do próprio passado. Ter Jace presente em sua mente era estranhamente confortante, como assistir a uma peça ao lado de um companheiro. Os dois peneiraram as memórias de seus momentos compartilhados, separando as peças e dispondoas. Jace soltou um longo assobio mental quando viu como parecera a princípio naquela ilha coberta de excremento de pássaros. Ambos sorriram assistindo a si mesmos lutando lado a lado na incursão. Vraska sentiu-se lacrimejar ao vê-los conversando na cozinha.

Sua história merece ser contada, Jace disse.

Ele parou quando alcançou o fim da memória da margem do rio, de si mesmo perdido em luto e envolto nos braços de Vraska. Vraska sabia que Jace entendia, com sua mente ligada à dela, que aquela fora a primeira vez que tocara alguém por vontade própria em muitos anos.

Então, Vraska sentiu como se estivesse descendo. A margem do rio desapareceu, tudo ficou escuro e nublado, e foi-lhe apresentado algo desconhecido — um poço construído de ardósia desgastada, e dentro dele as paredes eram revestidas com incontáveis texturas de memória. Viu suas memórias de Jace amarradas em um fardo, colocadas dentro de uma caixa, selada com uma barreira inquebrável. Sentiu Jace escondendo a caixa no poço e disfarçando sua presença com um feitiço.

Sã e salva, prometeu Jace.

Vejo você em breve, disse Vraska.

Mercado da Rua do Estanho, certo? Café e um livro? perguntou esperançoso.

Café e um livro, respondeu ela, feliz. Seu rosto pareceu quente, e Vraska sorriu.

Poderia jurar ter ouvido o som da chuva.

Amnésia Induzida | Arte de Chris Rallis

Seus pensamentos estavam calmos e frescos, seu corpo relaxado.

Sentia-se como se estivesse lá fora durante um banho de chuva de primavera.

Agradável e revigorada.

Abriu os olhos.

Piscou e olhou ao redor da sala vazia.

Como vim parar aqui?

Estava abafado, e um trono estranho estava na extremidade oposta. Tinha a sensação de que esta sala não era destinada a ser acessada pelo público. Ouvia sons de luta na sala acima. Acima dela havia um grande disco incrustado no teto. Tirou a bússola taumática e, com certeza, a agulha apontava para cima.

Encontrei!

Vraska estendeu as mãos e realizou o feitiço que seu patrocinador lhe ensunara meses antes.

Aquisição do Mentor | Arte de Svetlin Velinov

Era complicado, exigindo foco intenso e mais energia do que esperava. O feitiço disparou para longe dela como um relâmpago.

Vraska esperou por um minuto inteiro. Perguntou-se se funcionara, e saltou de surpresa quando um círculo violeta abriu-se diretamente sob o Sol Imortal.

Sentiu um estranho deslocamento dentro de si conforme o Sol era puxado através de outro plano. Conforme o portal se fechava, Vraska transplanou.